segunda-feira, janeiro 28, 2008

Sobre línguas oficiais

H. Correia deixou um novo comentário na sua mensagem "Sobre os vigaristas do costume que atacam a língua...":

Agradeço as suas observações.

O caso de Macau não tem semelhanças com o de Timor-leste por duas razões:

Primeira, durante a administração portuguesa de Macau havia uma só língua oficial (a portuguesa), excepto durante o período de transição que antecedeu a mudança de soberania para a China. Portanto, até à transição não havia motivo para utilizar a língua chinesa oficialmente em Macau.

Segunda, a esmagadora maioria desses "macaenses" que não compreendiam o Português não possuía nacionalidade portuguesa. Não porque esta lhes fosse negada, como fez a Coroa britânica aos habitantes de HK, mas pelo simples facto de não terem nascido em Macau, pelo que os seus conhecimentos linguísticos não eram relevantes.

Curiosamente, hoje há mais interesse em aprender Português em Macau, devido precisamente à necessidade que os chineses têm em dominar as leis macaenses - as presentes e as futuras.
O vocabulário jurídico de que carece o Tétum vai muito mais além do que palavras como "konstituisaun", embora mesmo esta pudesse ser substituida por "ukun-fuan inan" ou até "lei inan".

Quando mencionei a falta de vocabulário, referia-me a centenas de conceitos que nem sequer existem no ideário da maioria dos falantes monolingues de Tétum.

Só para lhe dar alguns exemplos:

arguido, jurisprudência, dolo eventual, forense, usucapião, inimputabilidade, homicídio privilegiado, lenocínio, usura, contra-ordenação, peculato, subsidiariedade, injunção, especulação, coacção, etc.

Não concordo com a simples transposição destas palavras ou expressões para o Tétum, adaptando a grafia à desta língua, porque se assim fizermos estaremos a criar uma espécie de crioulo artificial, dada a grande quantidade de palavras novas necessárias actualmente no Tétum.

E mesmo assim, o timorense médio que não conhece esses conceitos teria que os aprender. Seja "konstituisaun" ou "constituição", a palavra continua a ser desconhecida para ele e não é a mudança da grafia que o fará perceber.

Portanto, se optarmos pela política de ir buscar ao Português todas as palavras que não existem no Tétum, os timorenses estarão simplesmente a aprender Português quando aprenderem essas palavras novas do Tétum.

O que eu defendo é a tradução desses conceitos, aproveitando as palavras já existentes no Tétum para formar palavras ou expressões novas, que depois constarão de um léxico oficial jurídico - uma espécie de dicionário, que poderá ser consultado por qualquer pessoa, a qualquer momento.

Isso demora muito tempo. É um trabalho penoso e que exigirá muito estudo linguístico. Mas acho isso preferível a encher o Tétum de 90% de palavras portuguesas, o que poderia pôr em causa a sua identidade e a sua própria utilidade.

1 comentário:

h correia disse...

A propósito da falácia que frequentemente se lê na internet sobre o Português ser pouco falado (ou percebido) em Timor-Leste, sugiro a leitura deste texto, de autor desconhecido e publicado em http://www.agal-gz.org/foros/viewtopic.php?t=193

Trata-se de um texto que resume a História da ocupação de Olivença e da repressão da língua portuguesa nesse território.

Substitua-se "Olivença" por "Timor-Leste", "oliventino" por "timorense", "Espanha" por "Indonésia", "Castelhano" por "Indonésio" e façam-se mais algumas pequenas adaptações. O resultado assentará quase como uma luva ao que se passou em Timor-Leste durante a ocupação indonésia e ajuda a explicar (aos mais incrédulos) porque é que tão poucas pessoas falam Português em Timor.

"A 20 de Fevereiro de 1805, foi decidido suprimir toda e qualquer escola portuguesa, bem como o ensino do Português.

A 14 de Agosto de 1805, as actas da Câmara Municipal passaram a ser escritas obrigatoriamente em Castelhano, o que fez uma vítima: Vicente Vieira Valério. Este, negando-se a escrever na Língua de Cervantes, teve de ceder o lugar a outro. E acabou por morrer à mingua de recursos, personificando um drama cujo desenvolvimento se processaria, geração após geração.

As Escolas privadas continuaram a ministrar ensino em Português, até que são fechadas a 19 de Maio de 1813, com o propósito (oficial) "de evitar qualquer sentimento patriótico lusitano" (A.M.O. leg/Carp 7/2-18, 19-05-1813, n.º 1324; revelado por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, "Olivenza en su História", Olivença, 1999).

Mas, porque eram muitos os oliventinos que queriam que os seus filhos fossem educados na língua materna, continuaram a existir professores particulares para o fazer.

O "Ayuntamiento" não hesitou, e proibiram-se "as aulas particulares, sob pena de multa de 20 Ducados", em 1820 (A.M.O. leg/Carp 8/1-171, 7-10-1820, n.º 1704; revelado, também, por Miguel Ángel Vallecillo Teodoro, "Olivenza en su História", Olivença, 1999).

A população oliventina mantinha as velhas tradições, a vários níveis, procurando agir como se nada tivesse mudado. Mas tal foi sendo cada vez mais difícil, e muita gente foi emigrando, principalmente para as povoações portuguesas mais próximas.

Em 1840, trinta e nove anos após a ocupação espanhola ( recorde-se: efectuada em 1801 ), o Português foi proibido em Olivença, inclusivamente nas Igrejas. O combate contra a Língua de Camões já vinha de trás, todavia.

Algumas elites foram aceitando o castelhano. O Português foi-se mantendo, teimosamente, principalmente a nível popular.

O hábito e o amor-próprio levavam o oliventino a, quase constantemente, "saltar" do castelhano para o português. De tal forma que, depois de duzentos anos de pressão, ele é entendido e falado por cerca de, pelo menos 35% da população, segundo cálculos da União Europeia (Programa Mosaïc).

Como sucede, contudo, neste casos, em qualquer ponto do Globo, o Português foi perdendo prestígio. Não sendo utilizado nunca em documentos oficiais, na toponímia (salvo se traduzido e deturpado), ou em qualquer outra situação que reflectisse a dignidade de um idioma, manteve-se, discretamente, por vezes envergonhadamente. A Televisão e a Rádio vieram aumentar a pressão sobre o seu uso e compreensão.
A Ditadura Franquista acentuou a castelhanização. Agora oficialmente, o Português era uma Língua de quem não tinha... educação! Uma Língua de Brutos, ou, como também se dizia, uma Língua Bárbara!

Não obstante, ela sobreviveu. Mesmo nas ruas, surgia e ressurgia, a cada passo... raramente na presença da autoridades. Mesmo algumas elites continuavam a conhecê-la, embora numa fracção minoritária.

Nas décadas de 1940, 1950, e 1960, era raríssimo, mesmo impossível em alguns casos, encontrar professores, polícias, funcionários em geral, que fossem filhos da terra oliventina, na própria Olivença. Colonizadores inconscientes, peões numa política geral de destruição das diferenças por toda a Espanha."

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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