terça-feira, janeiro 22, 2008

Timor-Leste: Médicos cubanos denunciam "tirania" de Havana em Díli

Pedro Rosa Mendes, da Agência Lusa, em Díli

Díli, 22 Jan (Lusa) - A brigada médica cubana em Timor-Leste reproduz no país o controlo e repressão do regime de Havana, afirmaram à Agência Lusa em Díli quatro médicos que pretendem fugir para os Estados Unidos.

Os médicos, que há três meses vivem escondidos em locais diferentes em Díli, acusam a sua embaixada de gerir a "exportação da tirania" de Cuba para Timor-Leste.

"O Partido Comunista Cubano (PCC) funciona em Timor-Leste", acusam os médicos, que citam um funcionário da embaixada cubana, também anestesista no Hospital Central Guido Valadares, em Díli, como o secretário do PCC no país.

"O Partido tem controlo absoluto sobre a brigada, incluindo a vida pessoal de cada médico", declararam à Lusa os quatro cubanos.

Um contingente de quase 230 médicos, a que Havana dá o nome de brigada, está desde 2005 em Timor-Leste, constituindo o pilar do sistema de saúde do país.

Do quotidiano da brigada fazem parte sessões de autocrítica, fixadas em acta, avaliações ideológicas permanentes e uma reunião mensal do PCC em Lahane, na periferia da capital.

"Chamam-lhe a reunião do Imortal para que os timorenses não percebam do que se trata", explicou o médico Alexis Oriol Caceres.

A reunião realiza-se no terceiro domingo de cada mês.

"Cuba reduz a sua estrutura de maioria silenciosa em cada brigada médica. É simples", explica Alexis Oriol Caceres sobre a lógica de reprodução do "totalitarismo".

"É muito eficiente e quase perfeito. Não deixa nenhuma liberdade. Todos nós somos jubilados no `Big Brother`", acrescentou o médico cubano

Alexis Oriol Caceres continua à espera dos documentos de viagem que pediu na embaixada dos Estados Unidos em Díli.

Como todos os cooperantes cubanos, teve que entregar o seu passaporte à embaixada de Cuba assim que chegou a Timor-Leste.

"No Ministério dos Negócios Estrangeiros timorense disseram-me que eu sou um `indocumentado`", contou Alexis Oriol Caceres à Lusa.

"Eu não existo. A embaixada até fez desaparecer os meus registos do hospital".

"Limbo é uma palavra demasiado bonita para descrever a minha situação", concluiu o médico, especialista em bioinformática e ex-responsável (até cair em desgraça) pelas tecnologias de informação da embaixada de Cuba.

"Deixei de merecer confiança quando, em 2006, a embaixada descobriu que eu tinha um blogue", contou.

Outros três médicos cubanos vivem na clandestinidade em Díli. Comparando com Alexis Oriol Caceres, estão "um pouco melhor" face à burocracia.

Raidén López Carrillo, a sua mulher, Irina Valdés Pérez, e Miriela Llanes Martínez já obtiveram os documentos de viagem norte-americanos, mas falta-lhes uma autorização de saída do Governo timorense.

Todos, porém, vivem em condições dramáticas desde que abandonaram a brigada médica.

Os quatro têm uma história semelhante: vieram para um país de que mal tinham ouvido falar.

"Mandam-te e tu vens porque afinal é uma grande oportunidade", resume Irina Valdés Pérez.

Em Timor-Leste, cada brigadista ganha 250 dólares mensais (cerca de 173 euros).

"É muito", comparando com o ordenado mensal de um médico em Cuba: 25 dólares (menos de 18 euros).

De qualquer modo, não há escolha, explicam os médicos: "Quem recusa a mobilização já não tem carreira".

No melhor dos cenários, o cooperante cubano é colocado em Díli.

Miriela Llanes Martínez não teve tanta sorte. Foi colocada directamente num subdistrito de Covalima, sudoeste do país, "sozinha, sem saber falar tétum, sem água corrente, sem carro, sem televisão, sem cobertura de telemóvel e com uma bateria que só dava 4 horas de luz por dia".

Só depois de três meses foi colocado outro colega cubano nessa aldeia.

"Passava os dias a chorar. Não tinha com quem falar nem quem visitar. A única ajuda para os casos graves era chamar a Igreja", resumiu a médica.

As "penalizações" são de vária ordem: o não recebimento dos 4.800 dólares pelos dois anos de serviço, ou represálias sobre familiares.

Raidén López Carrillo foi insultado numa reunião do "Imortal", conta o médico, que teve a sua roupa e objectos pessoais "retirados do quarto sem autorização e queimados por ordem da embaixada".

Raidén López Carrillo recebeu o diploma das mãos do próprio líder cubano, Fidel Castro, em 2005, por ter sido o melhor aluno de Medicina da sua província.

Os quatro médicos afirmam que Timor-Leste "ignora" os contornos da repressão comunista na brigada médica.

Salientam, no entanto, que "não é uma coincidência que o embaixador de Cuba, Ramón Hernández Vásquez, membro do Comité Central do PCC, tenha visitado Timor-Leste pela primeira vez como convidado ao congresso da Fretilin em 2006".

Meses depois, apresentava as suas credenciais no Palácio das Cinzas.

"Sobre essa situação, já dissemos tudo o que havia a dizer", respondeu à Lusa o embaixador cubano em Díli, que a semana passada afirmou que a situação dos médicos que pretendem fugir para os Estados Unidos é "apenas um caso de emigração económica".

Lusa/Fim

2 comentários:

h correia disse...

REFRESCANDO A MEMÓRIA...

Blog Timor-Online
2-5-2007

Ramos Horta manterá relações com países comunistas se for eleito

EFE – 2 de Maio de 2007, 00:35
Díli - O ex-primeiro-ministro interino do Timor Leste, José Ramos Horta, declarou hoje à Efe que manterá a cooperação com os países comunistas, inclusive Cuba e Coréia do Norte, se vencer o segundo turno das eleições presidenciais, dia 9 de maio.

"Estabelecerei uma forte relação com países que adotam sistemas socialistas e comunistas, como Cuba, China, Coréia do Norte e Vietnã", disse Ramos Horta, após um comício em Díli, a capital do país. [...]

O candidato afirmou que, no seu Governo, o Timor não vai interferir nas políticas dos outros países, mas denunciará os abusos contra os direitos humanos por parte de Governos ditatoriais.

Margarida disse...

Timor: Médicos cubanos indignados com declarações Ramos-Horta
Diário Digital / Lusa
23-01-2008 13:00:00

Os quatro médicos cubanos à espera de fugir de Timor-Leste para os Estados Unidos reagiram hoje com indignação às declarações do presidente timorense, que terça-feira classificou o caso de mera «oportunidade económica».
«José Ramos-Horta devia preocupar-se por um partido estrangeiro controlar, funcionar e dirigir dentro do seu próprio país o sistema de saúde, como está acontecendo», afirmou o médico Alexis Oriol Rodriguez à Agência Lusa em Díli.
«Isto é uma chantagem política e não deveria ser permitida por um governo de nenhum país que se autoproclame livre, independente ou democrático», acrescentou o médico.
Quatro dos 227 cooperantes da brigada sanitária cubana em Timor-Leste não querem voltar a Cuba.
Os médicos, entrevistados pela Lusa, acusam Havana de «exportar a tirania» através do controlo rigoroso do Partido Comunista Cubano (PCC) sobre cada um dos cooperantes em Timor-Leste.
Os quatro médicos, sem passaporte, vivem escondidos em Díli há cerca de três meses, aguardando que o Governo timorense os deixe sair do país.
«Há uma lei, passada pelo Congresso (norte-americano) que garante a qualquer médico cubano, quer esteja em Cuba ou noutro país a trabalhar, que se quiser ir para os EUA sem tratamento especial é automaticamente aceite», declarou José Ramos-Horta à Lusa comentando o caso.
Para o chefe de Estado timorense, torna-se, por isso, «natural» que, havendo um país, como Cuba, onde os médicos «ganham pouco», se surgirem os Estados Unidos a «oferecer privilégios de médico», tal «incentive e encoraje qualquer um».
«Se assim é, então alguém nos explique por que estamos ainda aqui», declarou hoje à Lusa a médica Irina Valdés Pérez.
«Já cumprimos o contrato de 2 anos de missão em Timor-Leste. Não devemos nada nem a Timor nem a Cuba. Só pedimos que respeitem a liberdade de movimentos de cada um de nós», acrescentou a médica.
Irina Valdés Pérez, o seu marido Raidén López Carrillo e Miriela Llanes Martínez já obtiveram da embaixada dos Estados Unidos em Díli o visto de entrada e os documentos que lhes permitem viajar até à América, «mesmo sem passaporte».
Quanto a Alexis Oriol Rodriguez, ainda não obteve o visto norte-americano.
Sobre as declarações de José Ramos-Horta, Raidén López Carrillo interroga-se «sobre a noção de direitos humanos do Presidente da República, que é também Prémio Nobel da Paz».
«Em Cuba tudo é político», sublinhou Irina Valdés Pérez sobre os motivos «económicos» da sua fuga para os Estados Unidos, país onde os quatro médicos ouvidos pela Lusa têm família.
«Esse é o tipo de argumento repetido pela Embaixada de Cuba», acrescentou a médica.
«O Governo de Cuba, na figura do seu embaixador em Timor-Leste, e o que é pior, agora na do senhor Ramos-Horta (sic), tenta esconder ao mundo o desacordo e a reprovação que muitos cubanos sentem por viver num país onde não existe liberdade, democracia nem direitos humanos, ao chamar de 'económicos'» os motivos dos quatro médicos, afirmou Alexis Oriol Rodriguez.
As declarações do chefe de Estado timorense, conclui o médico numa declaração escrita à Lusa, deixaram-lhe «repugnância e a mais profunda pena».
A Lusa tentou, sem sucesso, nos últimos dois dias, esclarecer junto do Ministério dos Negócios Estrangeiros timorense qual a situação dos médicos cubanos e a razão por que não saíram do país.
Um responsável da embaixada dos Estados Unidos em Díli, contactado a propósito do mesmo caso, remeteu para quinta-feira «uma resposta oficial» do Departamento de Estado.
A mesma fonte explicou à Lusa, no entanto, que os três médicos cubanos autorizados a entrar nos Estados Unidos «não são asilados políticos» e que a sua documentação de viagem foi concedida ao abrigo de um programa especial.
Quanto ao embaixador de Cuba em Díli, Ramón Hernández Vásquez, membro do Comité Central do PCC, afirmou terça-feira à Lusa que «tudo o que havia a dizer« sobre o caso já foi dito.
Para o diplomata cubano, a situação dos médicos que pretendem fugir para os Estados Unidos é «apenas um caso de emigração económica».
http://diariodigital.sapo.pt/news.asp?section_id=10&id_news=315133

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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