sábado, fevereiro 23, 2008

Autor dos ataques explica-se ao Expresso

Expresso
23:00 Sexta-feira, 22 de Fev de 2008
Micael Pereira

Encontro de Xanana dias antes com peticionários motivou ataque do grupo de Alfredo Reinado. Tenente Salsinha diz que tem mais de 100 homens com ele.












O tenente Salsinha (à dir.) com o major Reinado, em 2007

O sucessor do major Reinado à frente dos rebeldes em Timor revelou ao Expresso que um encontro recente do primeiro-ministro, Xanana Gusmão, com peticionários esteve na origem dos ataques que quase mataram o Presidente Ramos-Horta, no dia 11 de Fevereiro.

"Soubemos por informadores que Xanana reuniu nas nossas costas com o major Tara e com outros peticionários (desertores do exército) em Díli, depois de Ramos-Horta ter um encontro, a 13 de Janeiro, em Maubisse, com o major Reinado e comigo para chegarmos a um acordo", conta o tenente Gastão Salsinha. "Como é que fazem uma coisa pela frente e outra coisa por trás?"

O tenente que assumiu o comando do grupo de rebeldes, depois de Alfredo Reinado ter sido morto no atentado a Ramos-Horta, diz desconhecer no entanto a intenção exacta do major ao ir fortemente armado a casa do Presidente em Metihau. "Às 21 horas de domingo (dia 10), ele disse-me: amanhã vamos a Díli, preparem-se".

Salsinha acrescenta que o ataque que se seguiu, meia hora mais tarde, em Balibar, ao carro do primeiro-ministro foi uma reacção emocional. "Sabíamos que Alfredo estava morto. Os homens ficaram zangados e dispararam contra o carro de Xanana. Se tivéssemos intenção de matar, não tínhamos atirado aos pneus. Foi um aviso".

A reunião a que se refere Salsinha entre Xanana e os peticionários aconteceu quatro dias antes dos atentados, a 7 de Fevereiro, estando presentes os majores Tara e Tilman, oficiais que a partir da crise de 2006 tinham passado a obedecer a Reinado, juntamente com 600 militares (os peticionários) que haviam abandonado os quartéis para protestar contra a discriminação de que diziam ser alvo por serem de distritos ocidentais (loromonos).

Xanana apareceu no dia 7 num armazém, em Díli, perante Tara e Tilman e mais 70 peticionários para iniciarem um programa de reintegração nas Forças de Defesa de Timor-Leste (FDTL) ou, em alternativa, de reingresso na vida civil. O primeiro-ministro dera a todos os desertores um prazo de duas semanas para comparecerem (que terminaria agora), ao fim do qual não aceitaria de volta mais ninguém. Contactado pelo Expresso, o major Tilman recusou falar desse encontro com o primeiro-ministro.

De acordo com Salsinha, a atitude de Xanana foi considerada como uma afronta muito séria, agravada pelo facto de o actual primeiro-ministro aceitar no lote de reintegrados oficiais que não faziam parte do núcleo original de 594 signatários da petição enviada em Janeiro de 2006 ao presidente da República (na altura, Xanana Gusmão) sobre a descriminação no exército, ao mesmo tempo que excluía abertamente do processo Alfredo Reinado por - precisamente - não ser um desses signatários. "Mas o major Tara, o major Tilman, o primeiro-sargento Leão Tino, o segundo-sargento Deluli, o alferes Barbosa, que não assinaram a petição, estão acantonados com os peticionários. Como é que isso é possível?"

A medida ameaçava isolar em definitivo o rebelde e as duas dezenas de homens armados que desde Agosto de 2006 têm andado a monte, desde que fugiram da prisão de Becora, já que o universo de 600 peticionários era reclamado pelo major como a sua causa de luta e também com a sua base principal de apoio. Com eles reintegrados, a posição de Reinado perderia qualquer sentido.

O gesto de Xanana parece ter sido a gota de água numa crispação - admitida pelo tenente Salsinha ao Expresso - que vinha em crescendo desde Novembro do ano passado, quando o primeiro-ministro promovera um primeiro encontro em Ailéu, a duas horas de Díli, com Tilman, Tara e mais 20 peticionários que resolveram responder ao convite.

Como sinal de protesto desse primeiro encontro, Reinado chegou a organizar uma parada militar em Ermera com centenas de peticionários, numa clara manifestação de força, mantendo no entanto as conversações abertas com Ramos-Horta, ao reunir-se com o presidente a 13 de Dezembro, um mês antes da derradeira conversa em Maubisse.

A própria relação com Ramos-Horta já tinha sofrido vários revezes, sobretudo desde Julho de 2007, logo depois das eleições presidenciais e legislativas. Numa entrevista ao Expresso, Reinado acusava o presidente então recém-eleito de estar a fazer um jogo duplo, argumentando que ele e o procurador-geral da República Longuinhos Monteiro tinham tido encontros recentes sem o seu conhecimento. "Não sei porque é que o líder desta nação e o procurador-geral vieram ter com alguns dos meus homens. Vieram persuadir os meus soldados. Que credibilidade têm como líderes?" O major dava sinais do seu estado de espírito. "Eles estão a tentar que os meus homens me traiam. Querem separar-me deles e dos peticionários, porque têm medo de enfrentar a verdade".

Sem querer revelar a sua localização, o tenente Gastão Salsinha diz que tem junto com ele mais de 100 homens, a maioria deles armados apenas com armas brancas. "E há mais 400 peticionários do nosso lado, espalhados pelo país", avisa o novo líder rebelde, garantindo que não se vai entregar, duas semanas após os atentados a Xanana e Ramos-Horta e mesmo sabendo que os antigos colegas das Forças de Defesa de Timor-Leste estão envolvidos nas operações de captura. "Nós não queremos guerra, queremos justiça. Se o povo nos disser para nos entregarmos, nós entregamo-nos". Mas, para Salsinha, não é isso o que diz o povo.

A mulher-sombra de Reinado

Entretanto, o Expresso soube que Angie, Ângela ou Angelita Pires, uma timorense de nacionalidade australiana que se encontra em prisão domiciliária por suspeita de cumplicidade com o major Reinado, foi quem provocou a zanga entre o líder rebelde e o antigo deputado Leandro Isaac, que chegou a estar escondido no mato com ele e os seus homens em 2007. "Ela ofereceu-se como assessora política e jurídica do major e aconselhou-o a manter as armas, ao contrário das minhas recomendações". Segundo Isaac, Ângela, que trabalhou até muito recentemente para a AusAid australiana, costumava levar entregas de dinheiro para Reinado, na montanha, a partir de Díli, onde havia angariadores a colaborar com os rebeldes. O Ministério Público requereu esta semana o acesso às contas bancárias da suspeita.

3 comentários:

Manatutu disse...

Uma mulher apaixonada e fiel, ou uma espia xanano-australiana, eis a questão?

h correia disse...

"Ela ofereceu-se como assessora política e jurídica do major e aconselhou-o a manter as armas, ao contrário das minhas recomendações". Segundo Isaac, Ângela, que trabalhou até muito recentemente para a AusAid australiana, costumava levar entregas de dinheiro para Reinado""

A ser verdade, isto é gravíssimo e prova o envolvimento australiano nesta questão, apoiando e sustentando Reinado contra o Estado timorense.

Anónimo disse...

Por favor! A angela deseperada nao e Australia. Ela pagara pelo contributo que fez ao tragico dia 11 de Fevereiro de 2008.

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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