sexta-feira, maio 02, 2008

Palácio, "karaoké", prisão: os 3 dias de Salsinha

Pedro Rosa Mendes, da Agência Lusa, em Timor

Díli, 01 Mai (Lusa) - Mari Alkatiri acordou mal dormido na quarta-feira e quis saber quem tinha feito a “festa de arromba” que não o deixou descansar na véspera, na sua casa do Bairro do Farol, Díli, Timor-Leste.

“Informaram-me que a festa tinha sido no comando conjunto, com Gastão Salsinha”, contou o secretário-geral da Fretilin à agência Lusa.

Gastão Salsinha é o principal suspeito (vivo) dos ataques onde quase perdeu a vida o Presidente da República, José Ramos-Horta.

O comando conjunto é a estrutura mista criada para o perseguir e capturar, na operação “Halibur”.

Depois de quase três meses no jogo do gato e do rato, nos distritos ocidentais de Timor-Leste, Gastão Salsinha aceitou render-se a 25 de Abril. O seu grupo desceu a Díli a 28 de Abril, segunda-feira.

As Forças Armadas e várias unidades da Polícia Nacional, a segurança pessoal do procurador-geral da República, a GNR portuguesa, as Forças de Estabilização Internacionais (ISF, sob comando australiano) e até, nos céus de Díli, um helicóptero de guerra “Black Hawk” formaram a guarda de honra de Gastão Salsinha e os seus doze companheiros (e um caixão de armas de cano longo).

“É uma recepção digna de Presidente da República”, ironizou, na cafetaria do Hotel Timor, um jovem timorense ao ouvir os primeiros alaridos de sirenes penetrando a cidade pela grande Avenida Mártires da Pátria.

Uma multidão saiu à rua para ver, ou para confirmar, a rendição do homem mais procurado do país, suspeito de liderar o ataque ao primeiro-ministro Xanana Gusmão e de ser cúmplice do ataque contra José Ramos-Horta pelo major Alfredo Reinado.

Muitos populares concentraram-se diante do Palácio do Governo, na baía de Díli, onde estacionaram as viaturas que tinham partido, ao início da manhã, das altas montanhas de Letefoho, Ermera (oeste).

A alusão presidencial ao cortejo do ex-tenente Salsinha não é descabida. Um dia depois da rendição, o comando conjunto assinalou o cumprimento da missão com jantar e música, onde oficiais da operação “Halibur” fizeram o “karaoké” do conhecido tema “Foin Sae Timor Oan” (“A Nova Geração de Timor”).

É um tema-hino da esperança timorense, escrito e interpretado pelo músico Abito Gama. É o mesmo tema com que os jovens receberam José Ramos-Horta no aeroporto Nicolau Lobato, quando o chefe de Estado regressou ao país, com aura de ressuscitado, a 17 de Abril.

Mari Alkatiri vive a cerca de duzentos metros do quartel-general do comando conjunto. A festa foi forte para ser ouvida através das casas baixas do bairro do Farol.

“Muita cerveja, muita música, muita alegria”, resumiu um dos participantes à Lusa.

Gastão Salsinha comeu e bebeu dentro do salão de conferências onde funciona o comando, sentado à mesa dos oficiais, com o tenente-coronel Calixto dos Santos Coliati, comandante operacional da “Halibur”.

Foi nessa sala que, durante semanas, os elementos suspeitos de participação no 11 de Fevereiro, além de centenas de peticionários das Forças Armadas, foram recebidos e interrogados com café e bolinhos.

Foi também a sala onde quase todos eles foram mostrados à imprensa, com as respectivas armas sempre que havia apreensões.

“Divertiram-se todos”, resumiu o tenente-coronel Filomeno Paixão, primeiro comandante da operação “Halibur”, sobre o convívio de terça-feira à noite, em declarações à Lusa.

“O que houve é que os membros das forças conjuntas estavam contentes”, explicou hoje o oficial superior das F-FDTL.

Junto à mesa de Coliati e de Salsinha (primeiro desconfortável, depois sorridente, segundo imagens vistas pela Lusa), os fugitivos que se entregaram segunda-feira passada foram celebrados, abraçados e confortados com emoção pelos elementos da operação de captura.

Cerca das 22:30, Gastão Salsinha e o seu grupo recolheram à detenção. A festa continuou no exterior do salão de conferências, sem eles.

No dia seguinte, todo o grupo foi entregue às autoridades pelo comando conjunto.

“Desde as 15:00 de quarta-feira que estão sob a alçada do juiz. Já não temos nada a ver com eles”, resumiu Filomeno Paixão.

Horas depois da entrega ao juiz, Salsinha e cinco dos seus homens foram constituídos arguidos e foram sujeitos ao primeiro interrogatório, que continuou hoje, pelo magistrado internacional Ivo Rosa, do Tribunal Distrital de Díli.

Quanto aos outros sete, “estão decerto em liberdade ou, se estiverem presos, estão em prisão ilegal. Não vieram sequer ao Tribunal (ser interrogados) porque não pendia sobre eles nenhum mandado de captura”, explicou o juiz Ivo Rosa à agência Lusa.

Decorria o interrogatório, nas instalações do Tribunal de Recurso, quando passou na rua uma manifestação da central sindical timorense, com bandeiras vermelhas e gente gritando: “Hoje é o teu dia!”.

O Dia do Trabalhador.

A porta de entrada do tribunal, sempre aberta, e a porta da sala de julgamentos, envidraçada, dá a quem estiver na cadeira do juiz uma perspectiva directa do que se passa na rua.

Os arguidos estavam de costas para a manifestação.

No final do interrogatório, o juiz aplicou ao grupo de Salsinha a medida de prisão preventiva.

Nem o juiz do processo nem o Ministério Público, através do procurador internacional Felismino Cardoso, sabiam para que prisão iam seguir os seis arguidos, uma vez que essa é uma decisão do Ministério da Justiça.

“Devem estar em Colmera”, afirmou o tenente-coronel Filomeno Paixão à Lusa, referindo-se ao edifício que, na avenida principal da capital, alberga os suspeitos do 11 de Fevereiro, servindo de prisão de alta segurança.

“Para mim é errado. Aquela casa é a messe dos oficiais” das F-FDTL, declarou Filomeno Paixão. “Mas decidiram assim, e eu cumpro”.

Por ironia, é como oficial oficioso que Gastão Salsinha, expulso das F-FDTL em Março de 2006, aguarda o curso das investigações e a eventual marcação de julgamento.

“Justo ou não justo, este é o começo”, respondeu Gastão Salsinha quando questionado pela Lusa sobre o que espera do processo.

Lusa/fim

3 comentários:

Anónimo disse...

Que palhaçada!Nao compreendo como depois de tudo o que aconteceu ,este Salsinha ainda se diverte ...é simplesmente incrivél!

h correia disse...

"formaram a guarda de honra de Gastão Salsinha"

Guarda de honra???

Não será escolta? Cuidado com os exageros...

Anónimo disse...

Realmente, Timor nunca deixa de nos "surpreender".

Para a alegria total, só faltavam lá estar o PR e PM.

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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