quarta-feira, maio 07, 2008

O Restaurador volta à casa do Proclamador

** Pedro Rosa Mendes, da Agência Lusa **

Díli, 07 Mai (Lusa) - Francisco Guterres "Lu Olo" recordou hoje na varanda de Francisco Xavier do Amaral, em Díli, que "a história da Fretilin e da ASDT (Associação Social Democrática Timorense) está cheia de lágrimas, com miséria e tristeza".

"Por isso, a Fretilin e a ASDT voltam a unir-se para reafirmar a sua presença nesta nação", explicou.

Francisco Guterres "Lu Olo", presidente da Fretilin, acabava de colocar a sua assinatura no documento que funda a Plataforma de Aliança Estratégica.

Os dois partidos pretendem "a realização de eleições legislativas antecipadas" e declaram o compromisso de "partilharem a governação em representação proporcional determinada pelos resultados eleitorais".

Além de "Lu Olo" e do seu homólogo da ASDT, Xavier do Amaral, assinaram o documento os secretários-gerais das duas formações políticas, Mari Alkatiri e Francisco Gomes.

Os quatro dirigentes estavam sentados, ombro com ombro, a uma mesa coberta com uma toalha verde, virados à baía de Díli e à Ilha de Ataúro, no número 1 da Avenida dos Direitos Humanos, na antiga marginal de Lecidere.

É lá, numa casa com árvores antigas e galos que cantam sempre, que mora Francisco Xavier do Amaral. O local conjura ocasiões históricas da luta timorense.

Foi ali, por exemplo, que, em 15 de Agosto de 1999, foi hasteada a primeira bandeira do Conselho Nacional da Resistência Timorense (CNRT) em Díli, duas semanas antes do referendo pela independência.

Alguns dos participantes nessa cerimónia estavam hoje no grupo restrito que assistiu ao pacto de Lecidere, como o deputado David Xímenes, da Fretilin.

O momento político, porém, é outro: hoje, foi contra um governo dirigido pelo novo CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste), do primeiro-ministro Xanana Gusmão, que "Lu Olo" e Xavier do Amaral assinaram a sua nova aliança.

A ASDT, em coligação com o Partido Social-Democrata (PSD), é um dos partidos fundadores da Aliança Para Maioria Parlamentar, que sustenta o actual Governo.

A Fretilin, vencedora das últimas eleições legislativas mas sem maioria absoluta, é o maior partido da oposição.

"Francisco 'Lorosae' e Francisco 'Loromonu'", resumiu, depois das assinaturas, um membro da Fretilin próximo de Mari Alkatiri, levantando risos entre os presentes.

"Lu Olo" é natural de Ossú, Viqueque, um dos distritos orientais ("lorosae"); Xavier do Amaral é natural de Turiscai, Manufahi, um dos distritos ocidentais ("loromonu"). As rivalidades entre as duas origens geográficas foram o pano de fundo da crise política e militar de 2006, que gerou uma onda de violência no país e cerca de 100.000 deslocados.

O documento fundador da Plataforma ASDT/Fretilin e o local escolhido remetem, da mesma forma, para as muitas divisões que marcam a vida dos dois dirigentes, dos dois partidos e de Timor-Leste, desde 1975 a 2008.

O texto recorda, em abertura, o papel histórico de Francisco Xavier do Amaral, "proclamador" da independência a 28 de Novembro de 1975, e de Francisco Guterres "Lu Olo", "restaurador" da independência a 20 de Maio de 2002.

Muita vida correu entre as duas datas.

Em 1974, Xavier do Amaral fundou a ASDT, que depois deu origem à Fretilin, de que ele também foi fundador. Efémero chefe de partido e de Estado, foi expulso da Fretilin e substituído por Nicolau Lobato, na sequência da invasão indonésia de 07 de Dezembro de 1975.

Francisco Xavier do Amaral, que mais tarde foi preso pelo país invasor, foi levado para Jacarta, onde chegou a trabalhar como motorista de um general indonésio.

Só em Julho de 2007, duas semanas antes da indigitação de Xanana Gusmão para formar Governo, é que o Parlamento reconheceu o estatuto de Francisco Xavier do Amaral como primeiro chefe de Estado, com as honras inerentes, "algo a que a Fretilin sempre se opôs", como o próprio afirmou na altura à Agência Lusa.

"É natural eu virar para a esquerda ou para a direita. O vento sopra para norte e para sul. Eu apoio aquele que me ajudar a levar a nação para a frente", explicou hoje o líder da ASDT sobre a nova aliança.

"Mesmo que ontem tenha sido Satanás, não faz mal. Até posso beijar-lhe os pés", acrescentou o líder da ASDT sobre a Fretilin.

"Não estou à procura da cadeira. Não queremos só que dêem uma cadeira para nos sentarmos", declarou o presidente da ASDT, quando questionado sobre a origem do pacto com a Fretilin.

"Podem analisar-me mas não podem empatar-me", acrescentou Francisco Xavier do Amaral, de 71 anos de idade.

"Eu continuo na AMP mas estou preparado para sair. Se a AMP mudar as suas atitudes nos acontecimentos que aí vêm, eu continuo com eles. Se não, se a AMP sair fora do caminho que nós todos queremos, eu saio", declarou ainda Francisco Xavier do Amaral.

"Se a AMP cair, é com eles. Nós não temos a intenção de os fazer cair. Se cair, cai", disse também o líder da ASDT na varanda de Lecidere.


Lusa/Fim

1 comentário:

h correia disse...

"Xavier do Amaral [...] foi expulso da Fretilin e substituído por Nicolau Lobato, na sequência da invasão indonésia"

Não gosto de remexer no passado, que está cheio de episódios tristes. Mas nesta citação de PRM falta explicar qual a razão porque Xavier do Amaral foi expulso da Fretilin. Sem ela, os leitores menos familiarizados com a História de Timor ficarão com a ideia de que o tio Xavier foi apenas vítima do ódio gratuito da Fretilin e Xanana é que é fixe porque o reabilitou. Só que não foi assim tão simples.

Não sou eu que vou contar, porque não quero atiçar brasas que já estão quase frias. Mas acho que, já que abordou a questão, PRM deveria informar o público dessa parte que está omissa.

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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