sábado, agosto 11, 2007

Tumultos Anti-ANZAC alastram em Timor-Leste

AUTOR: Blog READING THE MAPS
Traduzido por Alexandre Leite (http://tlaxcala.es/pp.asp?reference=3562&lg=po)

Houve tumultos nas duas maiores cidades de Timor-Leste, quando os opositores do novo Primeiro-Ministro Xanana Gusmão enfrentaram a polícia e os soldados da Anzac [Forças armadas da Austrália e Nova Zelândia]. O partido de Gusmão, o Congresso Nacional para a Reconstrução Timorense (CNRT), obteve apenas 22% dos votos nas eleições parlamentares do mês passado, ficando atrás da sua rival Fretilin. Gusmão conseguiu tomar o poder nesta semana devido a uma intervenção do seu aliado, Presidente José Ramos-Horta, que invocou uma cláusula da Constituição de Timor-Leste que lhe deu o poder para decretar o governo.

Os activistas da Fretilin ficaram indignados pela acção de Horta, insistindo que o seu partido tem o direito de formar uma administração porque teve o maior número de votos e o maior número de lugares no parlamento. O líder da Fretilin, e antigo Primeiro-Ministro Mari Alkatiri, disse ao jornal Sydney Morning Herald que “As pessoas estão realmente frustradas… elas votaram na Fretilin, na esperança que a Fretilin governasse o país e, de repente, com uma forma de interpretação da constituição, o segundo partido foi convidado [a formar governo].”

A agitação começou depois de protestos na capital Dili e na cidade da zona leste Baucau, quando confrontados com a polícia e soldados da Austrália e da Nova Zelândia. Recusando as ordens de dispersão, os manifestantes, que entoavam “Abaixo John Howard! [Primeiro-Ministro da Austrália]” e empunhavam cartazes denunciando Horta como uma marioneta australiana, construíram barricadas com pneus a arder e lançaram pedras à polícia e aos soldados. As tropas australianas abriram fogo depois de alguns jovens terem partido as janelas dos seus veículos perto do campo de refugiados pró-Fretilin de Comoro, nas redondezas de Dili. O campo tem sido um foco de protestos anti-ocupação desde que as tropas australianas mataram dois dos seus residentes a 22 de Fevereiro. A embaixada australiana foi atingida por pedras, e em Baucau um edifício associado à ONU foi incendiado. Os manifestantes atacaram veículos armados da Nova Zelândia em ambas as cidades.

Não é surpreendente que os manifestantes tenham decidido exprimir a sua raiva contra o governo ilegítimo de Gusmão, atacando as forças e propriedades da Anzac. Já há mais de um ano que a administração de John Howard tem vindo a interferir de forma flagrante nos assuntos timorenses em nome dos seus aliados Gusmão e Horta. No primeiro semestre de 2006, o governo de Howard fez uma campanha para desestabilizar o governo de Alkatiri, da Fretilin, dividindo as forças armadas e a polícia, financiando manifestações anti-seculares da poderosa Igreja Católica do país, e espalhando os medos anti-muçulmanos e anti-comunistas contra Alkatiri. O resultado foi uma onda de violência que foi usada para pressionar a Fretilin a concordar com o envio de uma ‘força de manutenção de paz’ da Anzac com soldados e polícia.

Howard usou as forças de segurança para garantir a demissão de Alkatiri e colocar Horta no seu lugar como Primeiro-Ministro provisório. Em resposta, Horta elogiou profusamente a política externa australiana e norte-americana e assumiu uma atitude muito mais conciliadora com os planos de expansão da exploração australiana de campos de petróleo na Timor Gap. Mas a estabilidade política e social mostrou-se difícil de ser restaurada, e em Fevereiro e Março últimos a agitação atingiu Dili, na resposta à morte de civis timorenses por tropas Anzac que tinham sido mobilizadas contra os inimigos de Horta. Durante as eleições presidenciais e parlamentares deste ano, as tropas Anzac foram várias vezes utilizadas para enfrentar os opositores a Horta e Gusmão, da Fretilin. Quando John Howard visitou Dili no final de Julho para dar o seu apoio ao governo de Gusmão, defrontou-se com protestantes que exigiam o fim da presença da Anzac no seu país. Os novos tumultos em Dili e Baucau mostram simplesmente quão alargada se tornou a oposição à ocupação.

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Fonte: http://readingthemaps.blogspot.com/2007/08/down-with-john-howard-anti-anzac-riots.html

Artigo original publicado a 8 de Agosto de 2007.

3 comentários:

Margarida disse...

Milhares de timorenses deslocados devido à violência que se seguiu à posse de Xanana Gusmão
Público, 11.08.2007
Jorge Heitor

Aumentou durante os últimos dias o problema das populações deslocadas em Timor-Leste, com mais alguns milhares de cidadãos a terem de se juntar aos cerca de 100.000 que já eram referenciados antes de o antigo Presidente Xanana Gusmão ter sido convidado a formar Governo com base na Aliança com Maioria Parlamentar (AMP), uma congregação de quatro partidos adversários da Fretilin.

Milhares de pessoas foram escorraçadas das suas casas pela violência e tiveram de procurar alojamento temporário em esquadras e em igrejas, declarou fonte policial timorense ontem citada pela imprensa australiana.

Grupos de agitadores incendiaram ou destruíram perto de 200 residências no distrito de Viqueque, obrigando a população a fugir para as montanhas, disse ontem à Reuters o comandante da polícia local, José de Carvalho.

A fundação de direitos humanos HAK, criada em 1997 por jovens intelectuais timorenses, pediu ao novo Governo que restaure a lei e a ordem, para que "o povo não continue a ser vítima das divergências entre os seus dirigentes".

Enquanto isto, o líder da bancada parlamentar da Fretilin, Aniceto Lopes, deu uma conferência de imprensa em que afirmou que "os senhores da AMP estão afectados pela loucura do poder, naquilo que ele tem de mais mesquinho e reles". E apostrofou em especial a atitude da ministra da Justiça, Lúcia Lobato, ao ter atrasado a saída para a Malásia do avião fretado em que viajava um antigo ministro do Interior (aliás seu tio), que fora libertado da pena que estava a cumprir a fim de ir ao estrangeiro receber assistência médica especializada. Rogério Lobato, antigo vice-presidente da Fretilin, "está seriamente doente", disse Aniceto Lopes, citando uma junta de três médicos que considerou essencial um acompanhamento clínico com recursos inexistentes em Díli.

Margarida disse...

Após a nomeação de Xanana Gusmão
Violência e detenções em Timor
Correio da Manhã, 11/08/07

Os incidentes violentos que ocorreram em Timor-Leste após a nomeação de Xanana Gusmão para o cargo de primeiro-ministro resultaram na destruição de mais de cem casas nos distritos de Viqueque e Baucau, leste do país, segundo o porta-voz a polícia da ONU. Kudma Mascarenhas acrescentou que número ainda não determinado de pessoas abandonaram as suas casas, refugiando-se nas montanhas. Mais de 50 detenções foram efectuadas em Baucau pela Polícia Nacional de Timor-Leste e UNPOL.

Em Díli, foram feitas 17 detenções, todas relacionadas com apedrejamentos de viaturas civis e da ONU e confrontos entre grupos de jovens rivais. A Unicef receia que a violência ponha em causa o ano escolar, formalmente em curso desde o passado dia 6. Os incidentes em Timor estão relacionados com o impasse que rodeou a designação do primeiro-ministro, Xanana Gusmão. A Fretilin, vencedora das legislativas de 30 de Junho mas sem obter maioria absoluta, rejeitou e denunciou a escolha de Xanana como traduzindo um “golpe de Estado constitucional”.

maps disse...

New developments:
http://readingthemaps.blogspot.com/2007/08/aussies-had-better-go-home-alkatiri-ups_20.html

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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