domingo, outubro 07, 2007

Dos atalhos da Justiça

Blogue Público - Quarta-feira, 3 de Outubro de 2007

Ângela Carrascalão

A avaliar pelo verde-escuro da folhagem que lhe servia de fundo, Reinado não teve de descer da montanha para conceder a longa entrevista à RTTL na qual não foi apresentado como major. Voltou agora a ser capitão-tenente da Marinha e assim foi tratado pelo entrevistador mal começou a conversa. Rodeado de homens bem armados, o ex-major-capitão-tenente Alfredo Reinado usou de tom agreste para dizer de sua justiça que não se apresentará a julgamento se os juízes forem da “Mafia” da CPLP. Para além de que, não tendo feito mal nenhum aos “malais”, não terá de ser julgado por eles.

E, enquanto espera pelos juízes timorenses, o ex-major-capitão-tenente lá foi dizendo que apenas responderá pela troca de tiros de 23 de Maio ocorrido em Fatu-Ahi, incidente do qual resultou a morte de pelo menos um elemento das F-FDTL.

Quanto aos incidentes de 24 e 25 de Maio de 2006 nos quais também houve mortes, haverá outros que não ele a terem de ser responsabilizados, sustentou.

Reinado também quer o “acantonamento” dos seus homens - não, não há confusão, não há FALINTIL sem FDTL e não estamos em 1999! - não para serem capturados, mas porque o ex-major-capitão-tenente preconiza o seu regresso às Forças Armadas. Como e quando? Vá lá saber-se!

Ainda a entrevista de Reinado estava a ser digerida e logo nos surge outra notícia: Railós fora detido pela UNPOL na madrugada de hoje juntamente com outros elementos pelo seu envolvimento directo no incidente de 24 de Maio de 2006 em Taci-Tolu.

A família não gostou porque entende que Railós não fez nada que justificasse a detenção. E a família, essa, sim, desceu a Díli e foi ao Parlamento apresentar as suas reclamações.

Pelo meio, falaram o Presidente do Tribunal de Recurso e o Procurador-Geral da República: os tribunais limitam-se a aplicar a lei e a fazer Justiça, ficando a política com os políticos (disse o juiz Cláudio Ximenes) e a presença dos juízes-CPLP é legal, considerou Longuinhos Monteiro.
No Tribunal de Díli prossegue o julgamento dos elementos da F-FDTL que atiraram contra os indefesos agentes da PNTL a 25 de Maio do ano passado. Uma testemunha, agente da PNTL, declarou ter reconhecido o autor dos disparos num dos onze militares a serem julgados, enquanto outra – uma mulher-polícia - afiança que os tiros partiram dos grupo das F-FDTL. Só que não consegue identificar os autores.

Talvez pela sua complexidade, talvez também porque, os temas acima tratados de tão densos, são “demasiada areia para a minha camioneta” ou até pelo adiantado da hora, assim como quem não quer a coisa, soltou-se-me o pensamento, voou, saltitou e quedou-se na matéria do meu estudo de hoje: os fins das penas e a culpa.

E por aqui me fico!

1 comentário:

h correia disse...

Estas declarações de Reinado em que chama "Máfia" aos juízes estrangeiros que trabalham em Timor-Leste fazem-me lembrar um episódio que sucedeu em Timor, nos anos 60.

Nessa altura, a vida decorria lânguida numa sucessão de manhãs quentes e de noites calmas, só perturbadas pelo canto dos tokés.

As lutas de galos e as idas à escola, ao serviço, à missa, à praia, ao bazar ou à loja china quebravam essa monotonia a que alguns chamavam "estagnação". De vez em quando havia programa especial, como algum kore metan, a chegada do navio "Timor" ou até a feira do 10 de Junho, onde actualmente se situa o Parlamento Nacional.

Os conflitos eram habitualmente resolvidos segundo o Direito Tradicional ou, se tal fosse necessário, a justiça salomónica de algum administrador ou, por vezes, do próprio Governador.

Acima de tudo, e quando abundavam as guerras um pouco por todo o mundo, evitava-se tanto quanto possível que algo quebrasse aquela paz amodorrada, que era a outra face da moeda a que alguns chamavam "desterro no fim do mundo".

Muitos ainda se lembram do velho Guilherme Gonçalves, uma espécie de senhor feudal dos tempos modernos lá na sua região de Atsabe. E dizem as más-línguas que ele e o resto da família estavam envolvidos em negócios escuros. As autoridades sabiam dos cambalachos mas fechavam os olhos, para evitarem problemas locais. Bastava, para isso, que o experiente katuas lhes assegurasse que quaisquer conflitos se manteriam dentro dos limites do seu Concelho.

Foi assim que sempre se deu bem com as autoridades portuguesas e, posteriormente, com os indonésios.

Mas eis que um belo dia desembarca em Dili um novo juíz da comarca, jovem goês. E mal lhe chegaram aos ouvidos aqueles zumzuns, mandou prender o Sr. Gonçalves, pois claro.

Foi o pânico em Dili: Lá se foi a nossa paz! Imediatamente, a família fez o seu protesto veemente ao Governador. Então que falta de respeito era aquela? um rapazinho acabado de chegar manda prender o velho Gonçalves, como se fosse um bandido? O Governador, que não estava nada satisfeito com aquela ebulição toda, não sabia muito bem como havia de descalçar a bota, pois não podia interferir no Tribunal. Como resolver a situação?

Após muitas horas de reflexão, decidiu contar o sucedido ao Ministro e, juntos, lá cozinharam um "recurso" que seria julgado em Lourenço Marques, longe da alçada do jovem juíz de Timor e que, obviamente seria ganho e o katuas libertado.

Assim, ninguém perderia a face e continuaria tudo com a paz do costume.

Espero que as coincidências com a actualidade não cheguem aos dois últimos parágrafos...

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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