sábado, maio 10, 2008

Rice: Timor's next crisis

International Relations and Security Network (ISN) - 06/05/08
Loro Horta

The rising cost of rice in East Timor is not just a reflection of the worldwide shortage, but also of corruption and mismanagement in Dili, writes Loro Horta for ISN Security Watch.

Soaring rice prices in Asia are beginning to have an effect on the livelihoods of millions of people; even the wealthier and stable nations of the region are bracing themselves for the consequences. For East Timor, the most impoverished and one of the most unstable countries in the region, the effects of the rice crisis could be devastating.

East Timor (Timor Leste) relies on imports for nearly 60 percent of its rice needs and is therefore highly vulnerable to the slightest disruption in international food markets. The country relies heavily on imports from Thailand, Vietnam and China - countries that are now imposing export restrictions in order to cope with their own domestic consumption problems.

If East Timor is deprived of access to foreign markets the situation may be catastrophic, with widespread famine and violence likely to reach explosive portions even for a nation that is no stranger to suffering and violence.

Incompetence and irresponsibility on the part of the Dili government have increased the country's vulnerability to the volatility of international markets.

In order to maintain its fragile coalition's hold on power, Prime Minister Xanana Gusmao has decided to distribute 35 kilograms of rice every month to the country's 3,700 military and police personnel and its 17,000 public servants, while offering free daily meals to government servants and members of parliament. Significant amounts of these rice handouts have been coming from the national rice emergency stock, which is now at an all-time low.

East Timor's average annual rice consumption is between 90,000-100,000 tonnes, while the national rice stock currently stands at a just over three tonnes - less than half the desired safety level of 8,000 tonnes and just enough to feed the country for a month.

In case of an emergency, the country's poor roads and port facilities are likely to make import and distribution extremely difficult and further exacerbate shortages, putting the most remote regions at great risk.

The government rice subsidies and free distribution have in turn discouraged local business from importing the stable crop, adding another dangerous variable to the equation.

Signs of rice hording and price manipulation are already evident. In February, a 35-kilogram bag of rice sold for US$13. By April, the price had risen to US$20. In the rural areas, high transport costs resulting from the country's dismal roads has led prices there to reach US$27 per 35-kilogram bag of rice.

In a country where the minimum monthly wage is US$85 and 80 percent of the people are unemployed, the spike in rice prices could have serious humanitarian and security consequences. This raises the question: What will happen if the government is suddenly unable to provide the people - not the mention the security forces and their families - with rice?

While Dili claims that it has enough supply for a month, an official from the Ministry of Agriculture and Fisheries told ISN Security Watch that the actual amount may be substantially lower due to corruption.

There are numerous reports of minor government employees stealing rice from the emergency stock to sell on the black market or to feed their own families.

The presence of an estimated 100,000, internally displaced people (IDP) in the capital can only complicate matters. To this day, the government has not been able to provide an exact figure on the number of IDPs, speculating that it may be anywhere from 70,000 to 100,000.

More worrisome is the attribution of rice import monopolies to well-connected people, such as, in one instance, the wife of a government minister who now directs all rice imports into the country.

In order to address the problem, the country's leaders are now considering the possibility of using the fundo do petroleo (oil fund) of over US$2 billion, deposited in an American bank, to deal with the rice crisis. The oil fund was created to save money for future generations of Timorese to prevent squandering.

While using money from the oil fund may provide temporary relief, it will not address the root causes of the problem and may set a bad precedent by leading to further use of the fund money to address similar issues.

Timor's food problem, though it has its global causes as well, is also a reflection of deeper structural problems such as endemic corruption, political infighting and negligence.

Creating a better and more effective food distribution system and responsibly managing the emergency stock may be far more effective than handouts and resorting to the oil fund. Urgent investment in the agriculture sector is needed to provide the country with minimum levels of food security. If not urgently addressed, the current rice crisis will have serious consequences for a nation already marked by violence and abject poverty.

In 2007, during the serious rice shortages in the capital Dili, there were various cases in which people attacked each other for rice. There is no reason to think the same will not happen again.

Walking through one of Dili's markets I asked a Timorese vendor what he would do to feed his family if the country were to run out of rice. "Whatever it takes," he replied.

- Loro Horta is a research associate fellow at the S Rajaratnam School of International Studies, Nanyang Technological University and a visiting scholar at Sydney University Center for International Security Studies.
( http://www.isn.ethz.ch/news/sw/details.cfm?ID=18933)

Tradução:

Arroz: a próxima crise de Timor

International Relations and Security Network (ISN) - 06/05/08
Loro Horta

O aumento do preço do arroz em Timor-Leste é não apenas um reflexo da carência à escala mundial, mas também de corrupção e má gestão em Dili, escreve Loro Horta para o ISN Security Watch.

O aumento dos preços do arroz na Ásia está a começar a ter um efeito nas condições de vida de milhões de pessoas; mesmo as nações mais ricas e estáveis da região estão a acautelar-se elas próprias para as consequências. Para Timor-Leste, o mais empobrecido e um dos países mais instáveis na região, os efeitos da crise do arroz podem ser devastadores.

Timor-Leste apoia-se em importações para quase 60 por cento das suas necessidades de arroz e é por isso altamente vulnerável à mais leve perturbação do mercado internacional de alimentação. O país apoia-se pesadamente em importações da Tailândia, Vietname e China – países que agora impõem restrições às exportações de modo a lidarem com os seus próprios problemas de consumo doméstico.

Se Timor-Leste for desprovido de acesso a mercados estrangeiros a situação pode ser catastrófica, com fome alargada e probabilidade de violência atingir expressão explosiva mesmo para uma nação que não é estranha ao sofrimento e à violência.

A incompetência e a irresponsabilidade da parte do governo de Dili aumentaram a vulnerabilidade do país à volatilidade dos mercados internacionais.

De modo a manter a sua frágil coligação agarrada ao poder, o Primeiro-Ministro Xanana Gusmão decidiu distribuir 35 quilogramas de arroz em cada mês aos 3,700 membros das forças militares e policiais do país e aos seus 17,000 funcionários públicos, ao mesmo tempo que oferece refeições diárias gratuitas aos funcionários do governo e aos membros do parlamento. Quantias significativas dessas entregas de arroz vieram do estoque nacional de emergência de arroz, que atinge agora o seu nível mais baixo de sempre.

O consumo médio anual de Timor-Leste está entre 90,000-100,000 toneladas, enquanto correntemente o estoque nacional de arroz está apenas em pouco mais de três toneladas – menos do que metade do desejável nível de segurança de 8,000 toneladas e apenas o suficiente para alimentar o país durante um mês.

No caso duma emergência, as pobres estradas do país e as pobres instalações portuárias provavelmente tornarão extremamente difícil a importação e distribuição e exacerbará mais as carências, colocando as regiões mais remotas em grande risco.

Os subsídios de arroz do governo e a distribuição gratuita por seu lado desencorajaram os comerciantes locais de importarem as produções estáveis, acrescentando à equação outra variável perigosa.

Sinais de açambarcamento de arroz e de manipulação são já evidentes. Em Fevereiro, uma saca de 35 quilogramas de arroz vendia-se por US$13. Em Abril, o preço tinha subido para US$20. Nas áreas rurais, altos custos de transportes resultantes do mau estado das estradas levaram os preços lá a atingirem os US$27 por saca de arroz de 35 quilogramas.

Num país onde o salário mínimo mensal é de US$85 e 80 por cento das pessoas estão desempregadas, o remoinho dos preços do arroz podem ter graves consequências humanitárias e de segurança. Isto levanta a questão: O que é que acontecerá se o governo for de repente incapaz de providenciar o povo – já para nem mencionar as forças de segurança e as suas famílias – com arroz?

Ao mesmo tempo que Dili afirma que tem abastecimento suficiente para um mês, um funcionário do Ministério da Agricultura e Pescas disse ao ISN Security Watch que a quantidade actual pode ser substancialmente mais baixa devido à corrupção.

Há numerosos relatos de empregados de menor escalão do governo a roubarem arroz do estoque de emergência para venda no mercado negro ou para alimentar as suas próprias famílias.

A presença de uns estimados 100,000 deslocados na capital pode apenas complicar as questões. Até hoje, o governo não foi capaz de providenciar um número exacto do número de deslocados, especulando que podem ser de 70,000 a 100,000.

Mais preocupante é a atribuição do monopólio da importação de arroz a pessoas bem-conectadas, tais como, por exemplo, a mulher dum ministro do governo que dirige agora todas as importações de arroz para o país.

De modo a responder ao problema, os líderes do país estão agora a considerar a possibilidade de usar o fundo do petróleo de mais de US$2 biliões, depositados num banco Americano, para lidar com a crise do arroz. O fundo do petróleo foi criado para poupar dinheiro para as gerações Timorenses futuras para evitar esbanjamentos.

Conquanto o uso do dinheiro do fundo do petróleo pode dar alívio temporário, isso não responde às causas de raíz do problema e pode criar um mau precedente levando a maia usos do fundo do petróleo para responder a questões similares.

O problema de alimentos de Timor, apesar de ter também causas globais, é ainda um reflexo de mais profundos problemas estruturais tais como corrupção endémica, lutas políticas e negligência.

Criar um melhor e mais efectivo sistema de distribuição e gestão responsável do estoque de emergência pode ser mais efectivo do que ofertas e deitar mão ao fundo do petróleo. Investimentos urgentes no sector da agricultura são necessários para fornecer níveis mínimos de segurança alimentar ao país. Se isso não se fizer urgentemente, a corrente crise do arroz terá consequências graves numa nação já marcada pela violência e pobreza abjecta.

Em 2007, durante as graves carências de arroz na capital Dili, houve vários casos em que as pessoas se atacaram umas às outras pelo arroz. Não há nenhuma razão para pensar que isso não acontecerá outra vez.

Caminhando através dum dos mercados de Dili perguntei a um vendedor Timorense o que é que faria para alimentar a sua família se o arroz se esgotasse no país "O que for preciso," respondeu ele.

- Loro Horta é um investigador no S Rajaratnam Escola de Estudos Internacionais, Nanyang Technological University e académico visitante no Centro de Estudos de Segurança Internacional da Sydney University .
( http://www.isn.ethz.ch/news/sw/details.cfm?ID=18933)

1 comentário:

Margarida disse...

Tradução:
Arroz: a próxima crise de Timor
International Relations and Security Network (ISN) - 06/05/08
Loro Horta

O aumento do preço do arroz em Timor-Leste é não apenas um reflexo da carência à escala mundial, mas também de corrupção e má gestão em Dili, escreve Loro Horta para o ISN Security Watch.

O aumento dos preços do arroz na Ásia está a começar a ter um efeito nas condições de vida de milhões de pessoas; mesmo as nações mais ricas e estáveis da região estão a acautelar-se elas próprias para as consequências. Para Timor-Leste, o mais empobrecido e um dos países mais instáveis na região, os efeitos da crise do arroz podem ser devastadores.

Timor-Leste apoia-se em importações para quase 60 por cento das suas necessidades de arroz e é por isso altamente vulnerável à mais leve perturbação do mercado internacional de alimentação. O país apoia-se pesadamente em importações da Tailândia, Vietname e China – países que agora impõem restrições às exportações de modo a lidarem com os seus próprios problemas de consumo doméstico.

Se Timor-Leste for desprovido de acesso a mercados estrangeiros a situação pode ser catastrófica, com fome alargada e probabilidade de violência atingir expressão explosiva mesmo para uma nação que não é estranha ao sofrimento e à violência.

A incompetência e a irresponsabilidade da parte do governo de Dili aumentaram a vulnerabilidade do país à volatilidade dos mercados internacionais.

De modo a manter a sua frágil coligação agarrada ao poder, o Primeiro-Ministro Xanana Gusmão decidiu distribuir 35 quilogramas de arroz em cada mês aos 3,700 membros das forças militares e policiais do país e aos seus 17,000 funcionários públicos, ao mesmo tempo que oferece refeições diárias gratuitas aos funcionários do governo e aos membros do parlamento. Quantias significativas dessas entregas de arroz vieram do estoque nacional de emergência de arroz, que atinge agora o seu nível mais baixo de sempre.

O consumo médio anual de Timor-Leste está entre 90,000-100,000 toneladas, enquanto correntemente o estoque nacional de arroz está apenas em pouco mais de três toneladas – menos do que metade do desejável nível de segurança de 8,000 toneladas e apenas o suficiente para alimentar o país durante um mês.

No caso duma emergência, as pobres estradas do país e as pobres instalações portuárias provavelmente tornarão extremamente difícil a importação e distribuição e exacerbará mais as carências, colocando as regiões mais remotas em grande risco.

Os subsídios de arroz do governo e a distribuição gratuita por seu lado desencorajaram os comerciantes locais de importarem as produções estáveis, acrescentando à equação outra variável perigosa.

Sinais de açambarcamento de arroz e de manipulação são já evidentes. Em Fevereiro, uma saca de 35 quilogramas de arroz vendia-se por US$13. Em Abril, o preço tinha subido para US$20. Nas áreas rurais, altos custos de transportes resultantes do mau estado das estradas levaram os preços lá a atingirem os US$27 por saca de arroz de 35 quilogramas.

Num país onde o salário mínimo mensal é de US$85 e 80 por cento das pessoas estão desempregadas, o remoinho dos preços do arroz podem ter graves consequências humanitárias e de segurança. Isto levanta a questão: O que é que acontecerá se o governo for de repente incapaz de providenciar o povo – já para nem mencionar as forças de segurança e as suas famílias – com arroz?

Ao mesmo tempo que Dili afirma que tem abastecimento suficiente para um mês, um funcionário do Ministério da Agricultura e Pescas disse ao ISN Security Watch que a quantidade actual pode ser substancialmente mais baixa devido à corrupção.

Há numerosos relatos de empregados de menor escalão do governo a roubarem arroz do estoque de emergência para venda no mercado negro ou para alimentar as suas próprias famílias.

A presença de uns estimados 100,000 deslocados na capital pode apenas complicar as questões. Até hoje, o governo não foi capaz de providenciar um número exacto do número de deslocados, especulando que podem ser de 70,000 a 100,000.

Mais preocupante é a atribuição do monopólio da importação de arroz a pessoas bem-conectadas, tais como, por exemplo, a mulher dum ministro do governo que dirige agora todas as importações de arroz para o país.

De modo a responder ao problema, os líderes do país estão agora a considerar a possibilidade de usar o fundo do petróleo de mais de US$2 biliões, depositados num banco Americano, para lidar com a crise do arroz. O fundo do petróleo foi criado para poupar dinheiro para as gerações Timorenses futuras para evitar esbanjamentos.

Conquanto o uso do dinheiro do fundo do petróleo pode dar alívio temporário, isso não responde às causas de raíz do problema e pode criar um mau precedente levando a maia usos do fundo do petróleo para responder a questões similares.

O problema de alimentos de Timor, apesar de ter também causas globais, é ainda um reflexo de mais profundos problemas estruturais tais como corrupção endémica, lutas políticas e negligência.

Criar um melhor e mais efectivo sistema de distribuição e gestão responsável do estoque de emergência pode ser mais efectivo do que ofertas e deitar mão ao fundo do petróleo. Investimentos urgentes no sector da agricultura são necessários para fornecer níveis mínimos de segurança alimentar ao país. Se isso não se fizer urgentemente, a corrente crise do arroz terá consequências graves numa nação já marcada pela violência e pobreza abjecta.

Em 2007, durante as graves carências de arroz na capital Dili, houve vários casos em que as pessoas se atacaram umas às outras pelo arroz. Não há nenhuma razão para pensar que isso não acontecerá outra vez.

Caminhando através dum dos mercados de Dili perguntei a um vendedor Timorense o que é que faria para alimentar a sua família se o arroz se esgotasse no país "O que for preciso," respondeu ele.

- Loro Horta é um investigador no S Rajaratnam Escola de Estudos Internacionais, Nanyang Technological University e académico visitante no Centro de Estudos de Segurança Internacional da Sydney University .
( http://www.isn.ethz.ch/news/sw/details.cfm?ID=18933)

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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