quarta-feira, fevereiro 18, 2009

"É PRECISO CREDIBILIZAR A POLÍCIA TIMORENSE"

DN
18.02.2009

VALENTINA MARCELINO

Confiança. O intendente Luís Carrilho vai comandar a polícia das Nações Unidas (UNMIT) em Timor. Na mala leva um terço que lhe deu o Papa e uma vontade férrea de ajudar a polícia timorense a conquistar a confiança da população. Defende que ninguém pode ser segregado por ter trabalhado para a Indonésia

Que missão lhe deu o secretário-geral da ONU?

A minha missão é a responsabilidade da manutenção da ordem pública, segurança e estabilidade em Timor. Ao mesmo tempo, devo preparar a transição do poder executivo que tem a polícia das Nações Unidas para a Polícia Nacional de Timor -Leste (PNTL).

Timor mereceu do secretário-geral da ONU algumas palavras especiais?

Estive com o secretário-geral, Ba Ki-moon, numa reunião com todos os comandantes de polícia das 18 missões das Nações Unidas que neste momento estão no terreno. Timor merece uma grande atenção por parte da ONU. É uma das suas maiores missões e a ONU está determinada em garantir o seu sucesso.

Timor é dos raros Estados que tem uma polícia estrangeira com poder executivo...

Não é caso único. No Kosovo isso também acontece. Este tipo de missões tem um prazo limitado, pois o objectivo é passar esse poder para as polícias do próprio país. À medida que a PNTL volte a ser uma polícia estruturada e estabilizada, volta a reassumir a responsabilidade da segurança e ordem pública. O que se pretende não é perpetuar a polícia das Nações Unidas no território, mas potenciar a polícia timorense.

E está longe ainda esse momento?

Não é fácil. Planos há, com toda a certeza. Mas da minha parte seria prematuro estar a falar já. Só quando chegar ao território e ver com os meus próprios olhos a situação é que posso tirar conclusões. É preciso falar com todos os actores envolvidos para ter uma ideia rigorosa do que é possível fazer.

Timor é um Estado novo, independente desde 2002. Para que os cidadãos de Timor-Leste possam ter mais confiança na sua própria polícia é preciso primeiro credibilizá-la e, sobretudo, fazer com que a população a acredite na polícia.

Mas esta avaliação não foi feita pelos seus antecessores?

Claro, mas em qualquer território, matérias como esta podem mudar de dia para dia. É um processo evolutivo. As coisas mudam. Pelas indicações que tenho, no entanto, sei que a situação tem melhorado substancialmente.

Que lições foram tiradas dos episódios de 2006, quando a PNTL se desmembrou completamente?

De facto, houve uma desestruturação da polícia em 2006, mas neste momento, a polícia voltou a ter alguma organização. Mas, como já disse, é preciso credibilizar a polícia timorense. É preciso aumentar a confiança da população na polícia.

O Sr. Intendente foi o primeiro director da Academia da Polícia de Timor. Formou, portanto, os elementos que protagonizaram essa ruptura. Não se sentiu responsável de alguma forma?

Em relação ao que aconteceu em 2006, o que posso dizer é o seguinte: quando saí do território acreditava - e continuo a acreditar - que os homens e as mulheres polícias com quem tinha trabalhado eram pessoas altamente motivadas para conseguir garantir a lei e ordem no país.

Então o que aconteceu?

Como é natural, todos os países têm o seu processo evolutivo e há determinado tipo de acontecimentos que todos gostávamos que não tivessem ocorrido.

E há diferença entre as expectativas que tinha quando foi para Timor em 2000 e as que tem agora?

Há nove anos não sabia de todo o que ia encontrar. Ia com um grande sentimento de entrega. Timor Leste estava e está no coração de todos os portugueses e estava no meu coração. É também assim que vou agora. Quero poder contribuir para a estabilidade em Timor Leste. Tudo o que possa fazer fá-lo-ei com muito gosto.

A ilusão era maior há nove anos?

A ilusão, a esperança, a confiança e o espirito positivo que tenho agora é exactamente o mesmo que tinha há nove anos. Acredito em Timor Leste e acredito nos homens e nas mulheres que servem a polícia timorense. Assim como acredito que é possível melhorar a sua credibilidade.

Quais são as principais fragilidades da polícia de Timor?

Não quero ainda avançar com diagnósticos. Quero chegar ao território e tirar depois as conclusões.

Um dos problemas que contribuiu para a descredibilização da polícia timorense em 2006 foi o facto de alguns dos elementos recrutados terem pertencido à polícia da indonésia. São diferentes agora os critérios de selecção para a polícia?

Os timorenses que vivem agora no Estado de Timor independente, são os mesmos que viviam no território durante o tempo em que Timor era parte de Portugal e são os mesmos que lá estavam quando foram integrados pela Indonésia. Como é natural, os princípios internacionais, o respeito pelos direitos humanos devem prevalecer em qualquer Estado. As pessoas que possam ter cometido factos que possam constituir crime serão devidamente sujeitas a um escrutínio legal.

Mas o facto de alguém ter sido da polícia indonésia é factor de exclusão de uma polícia timorense?

O sistema de recrutamento que em 2000 e 2001 se encontrou funcionou com pessoas que, como é natural, serviram durante o tempo português, durante o tempo indonésio e continuaram a servir a seguir. Os princípios pelos quais estou orientado será sempre um espírito de integração e não de segregação. O facto de alguém ter pertencido à polícia Indonésia não pode ser, só por si, um factor de exclusão.

Na selecção que fizermos saberemos ser rigorosos e ter tolerância zero para com aqueles que cometeram crimes, mas quer a polícia das Nações Unidas, quer a de Timor leste, terá como objectivo integrar e não segregar.

Como se comanda uma polícia que tem elementos de 40 países diferentes, com 40 doutrinas distintas?

Há princípios doutrinários que são internacionalmente comuns: o respeito pelos direitos do Homem e o princípio da proporcionalidade do uso da força.

O Governo de Timor convidou a GNR para criar uma força de segurança de matriz idêntica à sua. Enquanto oficial da PSP que vai comandar uma força policial internacional no território, o que pensa desta iniciativa?

Respeito, como é óbvio, qualquer decisão que o Governo de Timor Leste tome. A GNR tem uma grande reputação em Timor Leste. Conto e sei que vou ter o empenho da GNR, tal como conto com os elementos da PSP que lá estão e das outras forças internacionais. Timor Leste escolherá o seu próprio caminho no que pretende quanto ao modelo de segurança interna.

O atentado contra Ramos-Horta provocou alguma crispação entre o Governo e a ONU, nomeadamente com críticas de Ramos-Horta à "lenta" actuação da polícia das Nações Unidas para o ajudar. Essa tensão passou?

Não me ficaria bem comentar as declarações de um Chefe de Estado. Até porque já houve relatórios oficiais das Nações Unidas sobre esse assunto.

Mas o facto de a ONU ter escolhido um português para comandar a polícia é uma estratégia diplomática de aproximação ao presidente?

Na decisão da minha nomeação estiveram três actores envolvidos: Portugal, Timor e as Nações Unidas. Se não tivesse tido o apoio de Timor-Leste não iria para lá. Ser português honra-me muito, mas em Timor serei funcionário das Nações Unidas e serei cidadão internacional. Neste momento o que interessa é olhar para o futuro. E ajudar a sociedade timorense a seguir o seu caminho.

10 comentários:

h correia disse...

O Sr. Intendente deveria deixar de chamar "território" a Timor-Leste. Acredito que foi sem má intenção, mas cai mal aos olhos dos timorenses.

Dito isto, desejo-lhe muitas felicidades na sua missão.

Anónimo disse...

Sr. H correia,

O território é um dos elementos do Estado.
O Senhor aproveita tudo para dar "ferroada"!
Congratule-se com o facto de ser um português a desempenhar tão nobre missão.
Questões menores são irrelevantes...

Anónimo disse...

Bem dito, H Correia. Sem querer as pessoas esquecem-se de que Timor Leste e desde 2002 um Pais independente e Soberano.

Anónimo disse...

Numa entrevista à rádio portuguesa TSF ( www.tsf.pt ) ele promete ter mão muito firme para acabar com a violência. Promete ser ainda mais duro com os polícias timorenses, para não se repetirem erros do passado. Se assim for, podemos estar mais optimistas com o futuro.

Anónimo disse...

Os erros da policia pasado nao era incapasidade da policia timorense mas os autores politica do timor leste que misturar os entereses do politika ao institusaun orden publica PNTL e institusaun forcas armadas FFDTL.

A prioridade que necesitaun agora para policia timorencia era desenvolvimento capacidade profesional para os policias prestaun bon servicos ao populasaun do paiz.

As prioridades para os institusoens seguranca de pais PNTL/FFDTL era mantein se as proprias funsaun comu escrita na constitucao da republica.

Maubere Anan

Anónimo disse...

Concordo com o Sr Maubere-Anan. Os estrangeiros, e principalmente o intendente Luís Carrilho achm que so ele (eles) podem fazer tudo em Timor.

Pois precizamos da policia estrangeira para encabecar a nossa policia, porque ainda nao temos pessoas de qualidade da lideranca professional para desempenhar esta funcao (nota-se que Luis Carilho, nao liderara' apolicia Timorense, mas so apenas a policia ONU). Mas nao o intendente Luis Carilho a liderar a PNTL mas trabalhara' juntamente com a lideransa da policia timorense para desempenhar as funcoes policiais.

Podem acreditar, quem esta a asegurar a orden policial no terreno em Timor sao as policias Timorenses, nao sao os internacionais. Pois o minimo numero que tenham, nao e nem consegue controlar o terreno como estao sempre a cantar por fora do pais.

So que a presenca destes internacionais e' util no sentido de fasilitar "psicologicamente" o sentido de "proteccao", alias que os Timorenses (uma gente que veio sofrer um conflito prolongado) sentem-se nao estao sozinhos como eram.

E' neste sentido e' que a presenca dos policias Portuguese se pode colocar, e nao porque eles ou ele tem (tenham) mais capacidade de manter a paz no paiz, muito menos "corrigir os erros da policia local.

Por favor, Timor e' um pais soberano, ela preciza de ajuda, mas nao de patroes a dar instrucoes, muito menos "corrigir" os errados Timorenses. Esta mentalidade colonial tem que ser acabado ja, a parceria policial (local e internacional) e' que deve entender em termos da relacao entre PNTL e UNPOL, e nao de patrao-empregado.

Um abraco
Maubere-Foho

Anónimo disse...

How and why an alleged abuse of power and coruptor like Longinhos Monteiro will become a new PNTL Comander??? that's shocking news and a big disaster for Timor Leste.

I think Timor-Leste is not going towards the right direction. Longinhos Monteiro must responsible for his action and must be out of any publik duties.

All timorease knows well who is Longinhos Monteiro he is incapable guy he just a chunky dog of polititian. He suppose to be Work as security Bar as his previous job during the year of he study law in Bali Indonesia we were together there so I know him well.
He just lucky enought to get the job of Porsecutor general in East Timor.

Anónimo disse...

Sera que o Senhor Intendente sabe que vem chefiar uma policia ilegal?

Anónimo disse...

Sera que o Senhor Intendente sabe que vem chefiar uma policia ilegal?

Anónimo disse...

Se o Longinhos vai ser o novu comandante PNTL, Timor Leste vai ser un paiz Mafia.

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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