terça-feira, fevereiro 12, 2008

Declarado o estado de sítio em Timor

JN, 12/02/08

Paulo F. Silva *

Com 45 minutos de diferença, nos arredores de Díli, o presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, e o primeiro-ministro, Xanana Gusmão, foram alvo de um duplo atentado às primeiras horas da manhã. O regime timorense esteve à beira de cair às mãos do major rebelde Alfredo Reinado, que foi abatido pelas forças de segurança do presidente. Alvejado por duas balas, Ramos-Horta foi submetido a duas intervenções cirúrgicas (em Díli e em Darwin, na Austrália). Xanana Gusmão saiu ileso e, ao fim da manhã, declarou o estado de sítio em todo o território, com o correspondente recolher obrigatório entre as 20 e as 6 horas locais. A comunidade internacional uniu-se num raro coro unânime de protesto, com a condenação "nos mais fortes termos possíveis" do Conselho de Segurança das Nações Unidas à cabeça.

Aparentemente, Ramos-Hortas está livre de perigo (ver texto ao lado) e as próximas 24 a 48 horas, na unidade de cuidados intensivos do Royal Darwin Hospital, serão determinantes.

As circunstâncias estranhas em que o duplo atentado ocorreu constituem, de momento, um grande mistério. A escolta presidencial não pediu sequer socorro em tempo útil, para evitar que Ramos-Horta (no seu "jogging" matinal e avisado de um primeiro tiroteio) fosse vítima de uma segunda carga (ver página 4). E estranha-se que ninguém tenha ouvido os alertas de há uma semana do comandante das forças de Defesa de Timor, brigadeiro-general Taur Matan Ruak.

Na impossibilidade de Ramos--Horta, Timor é presidido interinamente por Vicente Guterres, vice-presidente do Parlamento timorense, visto que o presidente daquele órgão de soberania, Fernando "La Sama" Araújo, está em Lisboa, onde, ontem, foi recebido pelo presidente da República, Cavaco Silva.

A pedido de Timor, que deseja um aumento "substancial e significativo" de forças militares e policiais, a Austrália anunciou um reforço "imediato e forte". "Vamos responder de forma imediata com o envio de uma companhia (das Forças de Defesa) e o destacamento de entre 50 e 70 agentes policiais", disse o primeiro-ministro Kevin Rudd em Camberra. Os primeiros homens chegam hojea Díli. A caminho, vai uma fragata, também.

Posição ligeiramente diferente assumiu Portugal. Numa reunião de 30 minutos com o primeiro-ministro,"La Sama" Araújo ouviu que, neste momento, é prematuro falar em novos apoios de Portugal. Segundo Sócrates, um eventual aumento do número de militares da GNR em Timor terá de passar por uma avaliação que será necessariamente feita no âmbito das Nações Unidas.

A condenação internacional, além de unânime, foi rápida. O presidente das Comissão Europeia, Durão Barroso, classificou os atentados como um "ataque brutal" contra a "jovem democracia de Timor-Leste".

Para Ana Gomes, antiga embaixadora de Portugal na Indonésia, os ataques de ontem resultam de uma "atitude contemporizadora" para com Reinado.

* com agências

O major rebelde que provocou dois anos de instabilidade

LUÍS NAVES
DN, 12/02/08

Desertor desde 2006, Alfredo Reinado era um mito imprevisível

A figura do major Alfredo Reinado era tão complexa que quase se torna incompreensível. Citando uma frase que Winston Churchill aplicou à Rússia de 1939, Reinado era uma "adivinha, embrulhada num mistério, dentro de um enigma". O mais difícil, nesta personagem, é encontrar sentido nas suas acções.

Sabe-se que o major rebelde tinha à volta de 40 anos, que gostava de fardas, que se dizia insubmisso. Porque ninguém quebrou o grupo por ele liderado, mereceu a admiração incondicional de muitos jovens desenraizados. Mas a sua agenda política continua incoerente e apenas ele a parecia compreender. Haverá também motivações sociais na base de alguma simpatia popular, mas nada de concreto.

A carreira deste desertor golpista, fanfarrão, "rambo" sem causa acabou ontem de manhã em Díli (madrugada em Lisboa), num tiroteio cujos detalhes são tão contraditórios como era o actor principal do drama. Foi pela violência que este major da polícia militar se tornou famoso, em 2006, ao criar uma crise que levou à queda do Governo liderado por Mari Alkatiri, o qual pouco antes negociara um acordo petrolífero com a Austrália, em termos muitos favoráveis para Timor.

A violência estalou em Abril de 2006, com um incidente envolvendo os chamados peticionários (600 homens que tinham sido expulsos das forças armadas). Reinado desertou nesse altura, com 20 dos 33 efectivos da unidade que comandava. E tentou tornar-se rapidamente o líder de um grupo vasto de homens armados, que incluiria os peticionários. Na qualidade de rebelde, Reinado iludiu as forças internacionais (militares australianos), foi preso pela GNR e depois fugiu da prisão, guardada por australianos. Enquanto esteve nas montanhas, encontrou-se com o então presidente Xanana Gusmão. Passados dois anos, apenas no mês passado, Reinado acusou Xanana de ter sido o "instigador" da crise de 2006.

A relação com as vítimas de ontem sempre foi enigmática. A queda de Alkatiri tirou a Fretilin do poder. Reinado conhecera na Austrália, nos anos 90, o homem que ontem tentou matar José Ramos-Horta. Foi por intermédio do futuro presidente que o major entrou na resistência. No passado, servira, com sofrimento, como transportador das tropas indonésias.

Para conhecedores da actualidade timorense, Alfredo Reinado não era suficientemente "inteligente" para ser ele o verdadeiro autor das suas façanhas. Há quem diga que era "facilmente manipulável" e há quem use, para o definir, a palavra "marioneta".

Neste "teatro de sombras" da política timorense, Reinado era a carta vinda do nada e usada em momentos propícios para manter a efervescência. O Governo tentou negociar com o rebelde, numa estratégia de dividir peticionários e desertores. Isto, aparentemente, exacerbou o conflito.

Além das acusações de homicídio (no ataque de Fatuahai contra viaturas das Falintil, em 2006), Alfredo Reinado era acusado de deserção e rebelião. Muito pouco para justificar o mito.

CINZAS E NEVOEIRO NA POLÍTICA TIMORENSE

António Perez Metelo
redactor principal
DN, 12/02/08

No auge da crise político-militar de meados de 2006, Xanana Gusmão sai do seu Palácio das Cinzas e dirige-se à multidão exultante, concentrada na praça central de Díli: "Ganhámos porque fomos mais espertos!" O que tinham ganho era a demissão de Mari Alkatiri da chefia do Governo. A quem Xanana erguia o braço triunfante era o tenente peticionário Gastão Salsinha. O mesmo que, agora, o tentou matar.

O outro fugitivo, Alfredo Reinado, celebridade internacional via media australianos, andava há mais de um ano a ser protegido pelo actual Presidente da República, José Ramos-Horta, da execução de uma ordem de captura emitida pelo tribunal de Díli. Inúmeras foram as diligências de mediação para convencer Reinado e as duas dezenas dos seus irredutíveis armados a entregaram-se à Justiça pelos crimes de Maio de 2006 de que vêm acusados. Tudo em vão. E é o próprio Reinado quem conduz o comando de ataque a Ramos-Horta.

Os operacionais do golpe-por-etapas- -em-câmara-lenta, iniciado em Abril de 2006, viraram-se, agora, contra os líderes políticos, que lhes deram cobertura política. Porquê? Ou se trata de tresloucados com delírios de poder ou se adensa o nevoeiro de uma luta política opaca, que substitui a luta democrática nas urnas, pela conspiração golpista, nostálgica das figuras míticas dos guerrilheiros do passado.

A resultante conduz sempre ao mesmo: declarar Timor-Leste um Estado falhado, incapaz de se autodeterminar, dependente de um protector amigo...

Atentados alteram quadro político timorense

DN, 12/02/08


PEDRO ROSA MENDES, em Díli

A sala do Conselho de Ministros no Palácio de Governo, em Díli, e a cafetaria do Hotel Timor, antro oficioso da política do país, fervilhavam ontem com a mesma dúvida existencial que ocupa, e divide, as opiniões tanto do "povo kiik" timorense (a arraia miúda, em língua tétum) como da elite que governa o país, a saber: o que aconteceria, e com que gravidade, se o major levasse um tiro.

Alfredo Reinado levou um tiro, ironicamente disparado por um elemento da sua antiga unidade, a Polícia Militar. E agora? É desta perspectiva - a do atirador potencial, mesmo que ninguém cometa o indecoro de o dizer alto - que todo o país, afinal, olhava para Alfredo Reinado.

Foi possível ouvir, na classe política timorense, nos assessores internacionais e no aparelho judicial, ao longo do dia de ontem, as reacções que correspondem ao que cada um pensava, afinal, do major. "No final do dia, com Xanana ileso e Ramos-Horta fora de perigo, o que Timor-Leste resolveu foi um dos problemas que impedia a resolução da crise", comentava um assessor estrangeiro do Governo.

"O caso judicial (contra Alfredo Reinado) está fechado por ordem divina", comentou, lacónico, um jurista do Ministério Público, depois de a morte do militar ter sido oficializada.

Outros comentadores eram mais apreensivos, avançando com a tese, que sempre prevaleceu na estratégia do Estado com Reinado, segundo a qual a morte do major vai libertar forças que apenas ele controlava.

É para este último cenário que o aparelho de segurança timorense e internacional foi preparado: uma presença policial e militar potente, visível nas ruas.

Para o confronto previsível entre forças da ordem e agentes de desestabilização, há apenas uma referência: 3 de Março de 2007, ataque por tropas australianas a Same (Sudoeste) contra Reinado, que escapou, e que desencadeou em Díli uma onda de violência.

Nessa noite, dois pelotões operacionais da GNR serviram para controlar a situação, sem aliás, "nunca ter permitido que a desordem ganhasse a mó de cima", como recordou ontem um oficial das forças internacionais.

Não começaram ontem, com o duplo ataque contra José Ramos-Horta e Xanana Gusmão, as especulações e análises sobre se há vida em Timor- -Leste para além da morte do major rebelde, ex-comandante da Polícia Militar. Em abono da verdade, é essa a questão - ou o cálculo, porque se trata de política e de segurança - que ocupa toda a gente que é alguém em Díli, desde, pelo menos, a crise de 2006.

A generalidade dos comentadores ouvidos pela Lusa, dentro e fora da classe política, concordam que a paisagem política timorense não será a mesma sem Alfredo Reinado - o "joker" imprevisível num "jogo" de poker estratégico onde nunca é claro quem está sentado à mesa, como explicava recentemente um assessor de defesa australiano em Díli.

Reinado nunca foi eleito, sempre foi nomeado. Era, portanto, impossível avaliar o seu peso eleitoral. O "eleitorado" potencial de Alfredo Reinado situava-se numa balança diferente: a de uma camada jovem que, com uma franja alienada dos veteranos da resistência, o tinha como herói rebelde e que podem, agora, tentar vingar nas ruas a morte do seu ídolo ou do seu peão.

O desaparecimento de Alfredo Reinado concretiza um dos cenários que, em termos teóricos, sempre esteve em cima da mesa durante os quase dois anos em que o Estado timorense procurou resolver o caso do major rebelde.

Alfredo Reinado morreu cerca de 45 minutos antes de o próprio Presidente da República ter sido alvejado com três tiros. Entre os dois tiroteios que houve na residência do chefe de Estado, nenhum sinal de alarme foi dado a partir dela.

Surpreendidos pela ausência de Ramos-Horta na residência, os homens de Reinado "arrombaram várias portas a pontapé, à sua procura", relatou fonte oficial. Não o encontraram - e não se sabe o que fizeram na meia hora seguinte.

Nem se sabe por que razão não foi lançado um alerta de segurança que impedisse o ataque, 01.30 depois, ao primeiro-ministro Xanana Gusmão. São outras tantas perguntas sobre a capacidade de Timor-Leste lidar com o legado póstumo de Reinado. Especial Lusa para o DN

A pergunta do dia "Porquê agora?!"

Talvez nunca se venha a saber. Mas uma coisa é um facto. A consequência imediata do que aconteceu ontem foi:

1. a justificação do reforço das forças de segurança australianas no país....

O ataque do major que foi intocável por dois anos terá sido crime ou golpe de Estado?

Público, 12.02.2008
Por Francisca Gorjão Henriques

A morte do major rebelde Alfredo Reinado lança algumas perguntas: porquê tentar matar o homem que lhe estendeu a mão? Foi crime ou golpe de Estado?

Quem assistisse à cena, por certo não acreditaria: um preso deixava a penitenciária, saindo pela porta principal acompanhado de outros 56 detidos. O preso era o major Alfredo Reinado, acusado de homicídio e posse ilegal de material de guerra. O episódio passou-se em Agosto de 2006, na prisão de Díli. Antes disso, já Reinado tinha sido fotografado no seu refúgio em Ermera com soldados australianos ao lado. Depois, daria entrevistas a vários órgãos de comunicação social. E veria o próprio Presidente José Ramos-Horta a entrar em guerra com juízes internacionais por ter dado ordens para que não fosse cumprido o mandado de captura contra si. Mas afinal, o homem que parecia intocável (ver perfil na pág. 3) morreu ontem, baleado pelas forças do chefe de Estado.

Vale a pena recuar ainda mais, até aos meses de Abril e Maio de há dois anos. Um grupo de soldados denuncia discriminação dentro das Forças Armadas; a revolta cresce em poucos dias e os já 600 peticionários são expulsos do Exército pelo Governo de Mari Alkatiri. Ao grupo liderado pelo tenente Gastão Salsinha junta-se o major Alfredo Reinado. O que se seguiu foi um período negro na história pós-independência de Timor-Leste que ainda hoje não está sanado. A violência não se esgotou nos confrontos entre os ex-soldados e as forças de segurança; espalhou-se a civis, provocou 37 mortos e mais de cem mil refugiados.

Reinado e os seus homens conseguem escapar às operações de busca. Mas o major é depois detido, a 25 de Julho de 2006. Por pouco tempo. Ainda muitos se interrogam como é que, um mês depois, conseguiu sair da prisão como saiu. "Dava a impressão de que as portas da prisão foram abertas propositadamente para o libertar", comentou ontem ao PÚBLICO a embaixadora timorense Pascoela Barreto.

"Porquê ser alvo agora?"

Há um ano, o ainda Presidente (e agora primeiro-ministro) Xanana Gusmão autorizava uma operação de captura, depois de um assalto do grupo rebelde a três postos da polícia. Sem êxito. Reinado não só não caía nas mãos das autoridades, como criara entretanto um séquito de jovens seguidores. E se antes garantia que só respondia a Xanana, agora pede também o seu afastamento. No mês seguinte, em Março de 2007, as tropas australianas das Forças de Estabilização Internacionais (ISF) lançavam uma operação em Same, no litoral Sul do país, com blindados e helicópteros Black Hawk. Cinco pessoas morreram, alegadamente leais a Reinado.

Mas o major continuou a monte.

Em Junho, o ainda primeiro-ministro José Ramos-Horta mandou cancelar as buscas para dar início a uma polémica negociação. Depois das eleições de Julho, Ramos-Horta e Xanana passam a ocupar os mais altos cargos do país, e é já o novo Presidente quem, em Agosto, se encontrava com Reinado para tentar acabar com a instabilidade. Manda as forças australianas não cumprirem o mandado de captura contra o major, o que para o juiz internacional português Ivo Rosa constituiu uma decisão "ilegal" e uma "manifesta interferência no poder judicial".

E tudo isto levanta mais uma questão: "O Presidente Ramos-Horta tem vindo a fazer um esforço de diálogo entre Reinado e o Governo e a sociedade timorense. Porquê ser agora o alvo?", lança Pascoela Barreto. "Há vários interesses em jogo e não podemos afastar as hipóteses de os interesses regionais e do petróleo" terem sido decisivos para o tratamento dado a Reinado, continua a diplomata.

Mas ainda que Reinado seja o rosto do rastilho para a tragédia, foi com surpresa que alguns observadores assistiram ao desfecho da sua saga. "Não esperava que chegasse a este patamar de violência", confessou ao António Almeida Serra, professor do Instituto Superior de Economia e Gestão da Universidade Técnica de Lisboa, especialista em economia asiática. "Houve erros de avaliação por parte de dirigentes máximos de Timor Leste, das forças internacionais e da própria ONU, que está sempre ao lado do Governo". E continua: "A prisão dele iria desencadear um processo violento de derramamento de sangue, não só pelo acto da detenção (ele tinha bazucas e uma componente psicológica de Rambo) como da parte da população, dos grupos mais jovens".

Quanto à operação de ontem: "Não se percebe se actuou por vingança pessoal - os timorenses são dados a isso - ou se foi articulado com alguém por trás." Mas a causa terá importância para a sequência dos acontecimentos: "Será diferente se isto foi um acto criminoso de um bandido com armas pesadas, ou uma coisa mais complicada, [com vista a] um golpe de Estado, embora duvide desta última hipótese."

Ainda assim, o editorial do Sydney Morning Herald sentenciava: "A saída de Reinado da equação timorense é uma das coisas boas que saíram da loucura de ontem."

Há um ano, o Presidente (agora primeiro--ministro) Xanana Gusmão autorizou uma
operação para capturar Reinado

Foi extraída uma bala dos pulmões do Presidente José Ramos-Horta

Público, 12.02.2008
Por Jorge Heitor

Só dentro de 48 horas é que deverá haver um prognóstico clínico mais seguro quanto à recuperação do político vítima do major rebelde Alfredo Reinado

Quando Lasama de Araújo voltar de Portugal, de onde hoje parte, será ele a ficar
na presidência até que Ramos-Horta recupere

a O Presidente da República de Timor-Leste, José Ramos-Horta, eleito em Maio do ano passado, encontra-se hoje a recuperar num hospital da cidade australiana de Darwin dos graves ferimentos sofridos ao amanhecer de ontem (domingo à noite em Lisboa) na sua residência, em Díli. E no país está em vigor, pelo menos durante 48 horas, o estado de sítio, com recolher obrigatório das 20h às 6h da manhã.

Quanto ao primeiro-ministro Xanana Gusmão, ao qual Ramos-Horta sucedeu na chefia do Estado, conseguiu escapar ileso a um atentado posterior àquele que atingiu o político que em 1996 partilhou o Nobel da Paz de 1996 com o então bispo de Díli, Carlos Filipe Ximenes Belo, por ambos terem lutado de forma pacífica pela independência.

A tentativa de assassínio de José Ramos-Horta pelo grupo do major Alfredo Alves Reinado, morto no decurso da mesma, e a de Xanana por Gastão Salsinha, do grupo de peticionários que estiveram no centro da crise de há dois anos (ver texto na pág. 4), foi vista por alguns analistas como mais um perigo de violência e de caos na pequena nação. Salsinha conseguiu fugir e encontra-se agora a monte.

A Austrália, que sempre se tem posicionado como uma potência regional, aliada dos Estados Unidos, decidiu enviar um número "substancial" de tropas extra, aparentemente duas centenas de operacionais de uma força de reacção rápida, a juntar aos mil soldados que já tem em Timor-Leste, e, ainda, mais sete dezenas de polícias.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas marcou para ontem à tarde (já de noite em Lisboa) uma reunião de emergência, com vista a avaliar a necessidade de mais forças estrangeiras em Timor-Leste.

Rudd vai a Díli

O próprio primeiro-ministro trabalhista australiano, Kevin Rudd, anunciou que por toda esta semana se deslocará a Díli, correspondendo a um apelo de Xanana nesse sentido. E o presidente do Parlamento timorense, Fernando Lasama de Araújo, que estava a iniciar uma visita a Lisboa, manifestou interesse em também ver reforçado o contingente da GNR.

Rudd contou ter falado ontem por duas vezes com Xanana e, também, com a mulher deste, a australiana Kirsty Sword-Gusmão, directora da fundação humanitária Alola e um grande elo de ligação entre os dois países: o de origem e o de adopção.

Depois de uma primeira intervenção ontem de manhã num hospital de campanha, a um ferimento no estômago, Ramos-Horta foi transportado ao fim da tarde para Darwin e induzido em coma, a fim de lhe ser extraída uma bala que se lhe alojara nos pulmões.

Com ele viajou para a Austrália uma irmã, Rosa, mulher de João Carrascalão, líder da União Democrática Timorense (UDT), um dos partidos mais antigos do país, mas que obteve uma escassa votação nas legislativas do ano passado.

O chefe do Estado-Maior australiano, Angus Houston, reconheceu que as tropas australianas no território não conseguiram travar o passo aos elementos rebeldes que, sob o comando de Reinado e de Salsinha, trataram de alvejar Ramos-Horta e Xanana Gusmão.

Forças ineficazes

Esta é uma das críticas mais comuns que se escutam em Timor-Leste: a da ineficácia das forças internacionais aí destacadas perante a contestação de que o regime tem vindo a ser alvo por parte do agora neutralizado major Alfredo Reinado, que conseguiu sair da zona de Ermera e atravessar a capital sem que ninguém lhe travasse o passo.


A Austrália, devidamente apoiada pela Nova Zelândia, sempre tem dito que pretende colaborar na segurança de Timor-Leste, para que não tenha de testemunhar nenhuma guerra civil ali mesmo ao pé da porta, pois que isso perturbaria a exploração de petróleo e de gás natural no Mar de Timor. Os neozelandeses colocaram algumas tropas de prevenção, para a eventualidade de também eles reforçarem a sua presença, conforme disse o ministro dos Negócios Estrangeiros, Phil Goff.

Na chefia do Estado ficou a título interino o vice-presidente do Parlamento, Vicente da Silva Guterres, do Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste (CNRT), liderado por Xanana. Mas logo que Lasama de Araújo regressar de Portugal, de onde hoje parte, abreviando a sua visita oficial, será ele a ficar na presidência da República até que Ramos-Horta recupere, o que não se sabe ainda quanto tempo é que irá demorar.

"As próximas 24 a 48 horas dir-nos-ão do seu progresso. Estamos optimistas de que as boas capacidades cirúrgicas que aqui temos signifiquem que teremos uma boa hipótese de recuperação", disse à Reuters o director-geral do Royal Darwin Hospital, Len Notaras.

"O primeiro-ministro Xanana Gusmão terá agora de trabalhar muito para garantir que o Governo se mantém coeso", considerou Damien Kingsbury, professor associado da Universidade Deakin, que funciona em Melbourne e outras cidades australianas.

Forças no terreno

Público, 12.02.2008

Mais australianos
e neozelandeses

A Austrália dirigiu no fim de Maio de 2006 uma força de 3200 soldados estrangeiros que foram ajudar a pacificar Timor-Leste, depois de o país ter sido levado ao caos por seis centenas de soldados amotinados que eram comandados pelo tenente Gastão Salsinha, o mesmo que ontem atentou contra o primeiro-ministro Xanana Gusmão.

Alguns meses depois o número de militares australianos acabou por ser reduzido para um milhar, mas vai agora ser reforçado, na sequência dos incidentes das últimas 48 horas.

A Nova Zelândia, por seu turno, tem mais de 200 soldados e polícias no território, havendo agora colocado mais alguns de prevenção, para a eventualidade de a situação se precipitar, como alguns temem, e de se ficar na iminência de novos incidentes.

A GNR tem lá 120 militares, com seis viaturas blindadas e seis carrinhas, entre outro material, havendo o presidente do Parlamento timorense, Fernando Lasama de Araújo, solicitado ontem a Lisboa o reforço desse contingente.

Em Junho do ano passado um estudo encomendado pelo Governo timorense propôs a formação no país, durante os próximos 20 anos, de uma força nacional de 3000 homens, incluindo lanchas equipadas com mísseis.

Alfredo Reinado, morto no ataque, "não era uma ameaça" para Xanana

Público, 12.02.2008
Francisca Gorjão Henriques


Foi apenas há quatro dias: o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, dizia à agência Lusa que o major Alfredo Reinado "não é uma ameaça à estabilidade" do país. Ontem, poucos tinham dúvidas de que, por pouco, o major de 40 anos não conseguia colocar (novamente) Timor-Leste a ferro e fogo. Mas a morte deixa uma sombra a pairar sobre quem foi este homem que passou de refugiado a chefe militar e de chefe militar a rebelde.

O International Crisis Group chamou-lhe obstinado e desafiador, "um sintoma abrasivo da situação difícil timorense", num relatório do princípio do mês. Afinal, trata-se de alguém que, sabendo que as forças australianas estariam a aproximar-se para o capturar, "dormia sem sequer ter as botas calçadas", escrevia em Julho de 2007 o correspondente da Lusa em Díli, Pedro Rosa Mendes. David a desafiar abertamente Golias?

Reinado estava fugido das autoridades por homicídio, rebelião e posse ilegal de armamento. No entanto, arrastava atrás de si cada vez mais jovens, que o viam como o seu Che Guevara, segundo disse à Lusa o activista de direitos humanos José Luís Oliveira. "Alfredo é pintado e retratado como Che, porque há um culto de Che em Timor e os jovens vêem em Reinado o único timorense a lutar contra uma potência". "Eu entrego-me à justiça, mas a nenhum comando e a nenhuma força", afirmou.

Não foi indolor para ele a ocupação indonésia (1975-1999), tendo que trabalhar aos 11 anos como correio para os ocupantes. A AFP escrevia que nesse período viu crianças serem sequestradas depois de verem os pais assassinados. Aos 13 anos foi obrigado a ir para a Indonésia, onde ficou por cinco anos; regressou a Timor em 1985 e dois anos depois participava na luta contra o ocupante. Ficou dez anos. Com um grupo de amigos, a mulher, Maria, e o filho de cinco meses, fugiu num barco de pesca para a Austrália com o estatuto de exilado político.

Foi lá que se tornou no "amigo dos australianos", segundo acusaram muitos em Díli. Ainda assim, voltou com a independência ao seu país, tornando-se comandante da Marinha, ou seja, de dois navios. Foi depois transferido para o Exército, e acabou por ser major da polícia militar.

Foi alvo de alguns processos disciplinares e a obediência nunca foi o seu forte. O movimento dos peticionários (ver texto na pág. 4) foi apenas o rastilho, que só ontem se apagou.

Ataques condenados

Público, 12.02.2008

Ban Ki-moon
Secretário-geral da ONU

Condenou nos termos mais enérgicos possíveis os "ataques inaceitáveis" ao Presidente José Ramos-Horta e ao primeiro-ministro Xanana Gusmão, tendo o seu representante especial Atul Khare, que se encontrava em Nova Iorque, partido de imediato de regresso a Díli. Ban pediu ainda aos timorenses que permaneçam calmos e evitem actos violentos.

Ana Gomes
Eurodeputada socialista

A antiga embaixadora de Portugal em Jacarta considerou que os ataques foram o resultado de uma "atitude contemporizadora" das autoridades para com o major Reinado; e esperar uma melhor aplicação da justiça, para além de ter manifestado "algum alívio" pelo que aconteceu ao rebelde.

Mari Alkatiri
Secretário-geral da Fretilin
Deu todo o apoio do seu partido às forças de segurança para que se "mantenham a paz e a estabilidade". E disse que tinha havido recentemente "desenvolvimentos positivos, na sequência dos incansáveis esforços do Presidente para encontrar um mecanismo de consenso político nacional".

Luís Fonseca
Secretário executivo da CPLP

Afirmou que "a não-violência, o diálogo e o respeito pelos direitos do homem têm sempre norteado a vida e a acção política do dr. Ramos-Horta".

José Sócrates
Primeiro-ministro português

Manifestou "completa solidariedade com as instituições democráticas de Timor-Leste"; mas considerou "prematuro" falar num reforço do contingente da GNR: "Qualquer alteração terá de ser equacionada em função da avaliação que a ONU fizer."

East Timor Action Network
Nova Iorque

Lamentou que "Reinado e os seus seguidores tivessem continuado livres durante tanto tempo", até as suas ameaças "terem sido concretizadas com consequências trágicas".

Richard Tanter
Nautilus Institute (Austrália)
Notou que a crise se deve ao poder das armas, ao crescente empobrecimento e corrupção e à "legitimidade profundamente minada de todos os principais actores políticos". J.H.

Os complexos neo-colonialistas da esquerda portuguesa

Comentário na sua mensagem "O que não incomoda a PBV...":

É uma atitude tipicamente portuguesa da esquerda diletante ou mesmo da esquerda que deixou de o ser, e que acreditou no totalitarismo da FRETILIN, como sendo um mal a derrotar, por ignorância pura a tentar estabelecer um paralelismo com o passado nas outras antigas ex-colónias. O PBV não é de todo isento, atendendo à sua relação com antiga presidência.

Conselho de Segurança da ONU condena atentados

Nova Iorque, 11 Fev (Lusa) - O Conselho de Segurança da ONU condenou hoje as tentativas de assassínio do presidente e primeiro-ministro timorenses e apelou ao governo de Timor-Leste para que sejam julgados os responsáveis dos atentados.

O Conselho "condena veementemente o atentado contra a vida do presidente de Timor-Leste, José Ramos Horta, assim como o ataque contra a caravana do primeiro-ministro, Xanana Gusmão", declarou o embaixador do Panamá, Ricardo Alberto Arias, que preside ao órgão.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas, acrescentou Ricardo Alberto Arias, "apela ao governo de Timor-Leste para que sejam julgados os responsáveis deste acto horrível e exorta todas as partes timorenses a cooperarem com as autoridades neste propósito".

A declaração foi proferida à saída de uma reunião de emergência do Conselho, após os atentados, já condenados pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon.
ER.

Lusa/Fim

Bush denuncia ataque, diz que democracia não pode ser desencaminhada

Washington, 11 Fev (Lusa) - O presidente norte-americano denunciou hoje os atentados contra o presidente e o primeiro-ministro de Timor-Leste e lembrou aos seus mentores que não podem desencaminhar a democracia na pequena nação do Pacífico.

"Condeno energicamente os violentos ataques contra José Ramos-Horta", presidente de Timor-Leste e o seu primeiro-ministro, Xanana Gusmão, disse George W. Bush num comunicado.

"Aqueles que são responsáveis têm de saber que não podem descarrilar a democracia" em Timor-Leste " e que serão responsabilizados pelas suas acções", salientou.

Bush lembra que os Estados Unidos estão empenhados em trabalhar com o povo de Timor-Leste para reforçar a democracia.

Acrescenta que ele e a mulher, Laura, enviam condolências às famílias dos mortos nos ataques e deseja a Ramos-Horta e aos outros feridos uma rápida recuperação.

Homens armados tentaram matar domingo à noite (início da manhã de segunda-feira em Dili) o Presidente José Ramos-Horta e o primeiro-ministro Xanana Gusmão, em dois ataques concertados.

O ataque contra Ramos-Horta foi liderado pelo major Alfredo Reinado, que foi morto no incidente.

Ramos-Horta foi ferido a tiro e teve de ser submetido a uma intervenção cirúrgica no hospital militar australiano em Díli sendo depois transferido para uma unidade de cuidados intensivos do hospital de Darwin, Austrália, onde foi sujeito a uma segunda operação.
O porta-voz do Departamento de Estado, Sean McCormack, disse que o ataque ao Prémio Nobel da Paz é uma tentativa de fazer voltar para trás o relógio em Timor-Leste.

TM.

Lusa/Fim

PCP condena atentados e alerta para eventual "ingerência externa" no país

Lisboa, 11 Fev (Lusa) - O PCP condenou hoje "os ataques" contra o presidente de Timor-Leste, José Ramos-Horta, e primeiro-ministro, Xanana Gusmão, e alerta para "possíveis manobras" de "ingerência externa" no país.

O PCP considera, em comunicado, que os atentados "apenas podem visar o aprofundamento da instabilidade política timorense criada com os acontecimentos de 2006 e 2007" e com as últimas eleições legislativas em Timor-Leste.

Os comunistas condenam "os noticiados ataques a Ramos-Horta e a Xanana Gusmão, não obstante as informações e notícias de carácter impreciso e mesmo contraditório".

O PCP "considera indispensável uma aprofundada investigação que, dentro do quadro legal e constitucional timorense, identifique e puna os principais responsáveis por tais ataques".

No comunicado, é ainda feito o "alerta para as possíveis manobras que (...) visem justificar novos desenvolvimentos na acção de ingerência externa que ponham em causa a independência e soberania de Timor-Leste", mas o PCP não identifica a quem se refere.

Homens armados tentaram hoje matar José Ramos-Horta e Xanana Gusmão, em dois ataques concertados.

O ataque contra Ramos-Horta foi liderado pelo major Alfredo Reinado, que foi morto no incidente.

Ramos-Horta foi ferido a tiro e teve de ser submetido a uma intervenção cirúrgica no hospital militar australiano em Díli, tendo seguido para um hospital na cidade australiana de Darwin.

De acordo com um elemento da segurança do primeiro-ministro, o tenente Gastão Salsinha, um dos peticionários que abandonaram as forças armadas em 2006, comandou o ataque contra Xanana Gusmão, que saiu ileso.

NS.

Lusa/Fim

MNE australiano viaja a Darwin para encontros com homólogo timorense

Darwin, Austrália, 11 Fev (Lusa) - O ministro australiano dos Negócios Estrangeiros, Stephen Smith, chega hoje, dentro de poucas horas, à cidade de Darwin, onde está hospitalizado o presidente timorense, José Ramos-Horta, para contactos com o seu homólogo timorense, Zacarias da Costa.

Smith confirmou aos jornalistas, em Camberra, que espera em Darwin recolher informações mais precisas sobre o estado de saúde do líder timorense, que foi sujeito a um intervenção cirúrgica à chegada a Díli e que está na unidade de cuidados intensivos.

Deverá ainda reunir-se com Zacarias da Costa que acompanhou Ramos-Horta no voo de transporte médico até Darwin.

O chefe da diplomacia australiana explicou que pretende reafirmar "pessoalmente" o empenho da Austrália em ajudar as autoridades timorenses, nomeadamente através do envio de uma companhia de infantaria e de cerca de 70 agentes policiais.

Smith explicou que os efectivos adicionais podem ser utilizados nas operações de busca e captura dos elementos que integram o grupo responsável pelos ataques de hoje contra Ramos-Horta e o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão.

"Uma das razões pelas quais enviamos o complemento adicional de tropas e policiais é de que podem ser necessários para deter os apoiantes de Reinado", disse, referindo-se ao homem que alegadamente liderou os ataques e que foi morto durante o assalto à casa do presidente timorense.

"Esperamos que agora que o líder está morto possa haver uma forma pacifica dos seus apoiantes deporem as armas", afirmou.

Smith explicou que não acompanhará o primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, na sua visita esta semana a Díli, preferindo contactos directos em Darwin com Zacarias da Costa.

"Comunicar-lhe-ei, de ministro a ministro, o empenho forte do governo australiano em apoiar o governo eleito democraticamente em Timor-Leste. Respondemos muito rapidamente com este complemente adicional de tropas ao pedido timorense", explicou.

"Queremos deixar claro que a Austrália apoia Timor-Leste neste momento muito, muito difícil e queríamos enviar uma mostra de força, de apoio, já que a segurança e estabilidde em Timor-Leste é muito importante para a Austrália", frisou.

Fonte do Ministério australiano da Defesa disse à Lusa que o contingente de 120 militares e 70 agentes policiais australianos deverá chegar a Díli terça-feira à tarde, estando já a ser ultimados os preparativos para a sua viagem.

O reforço de militares e polícias foi anunciado hoje pelo primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, em resposta a um pedido nesse sentido do seu homólogo timorense.

O grupo que parte para Díli é formado por uma companhia de infantaria, do 3º batalhão do Royal Australian Regiment, sediado em Sydney, que será apoiado pela fragata HMAS Perth, que ficará no porto de Díli em apoio.

Seguem também para Díli, 70 agentes da Polícia Federal Austrália, corpo que já tem uma presença em Timor-Leste onde estão actualmente 780 efectivos das forças australianas de segurança.

"Para já, não há calendário para a permanência destes elementos. Isso ainda não está planeado", disse á fonte do Ministério da Defesa em Camberra, contactada telefonicamente pela Lusa.
"Trata-se de uma companhia de infantaria. Foi escolhida porque, rotativamente, era a que estava preparada para reagir em qualquer momento", afirmou.

O primeiro-ministro australiano, Kevin Rudd, anunciou hoje o reforço "imediato e forte" das forças militares e policiais da Austrália em Timor-Leste.

"Vamos responder de forma imediata com o envio de uma companhia (das forças de Defesa) e o destacamento de entre 50 a 70 agentes policiais", disse em Camberra.

O chefe do governo australiano classificou os incidentes de hoje em Timor-Leste como "uma tentativa coordenada de assassinar toda a liderança" timorense, o que classificou como "um desenvolvimento preocupante".

"Quando se tem algo tão grave como a tentativa de assassínio de toda a liderança democraticamente eleita de um dos nossos vizinhos, é um momento destabilizador que requer a resposta de uma força apropriada e necessária", afirmou.

ASP.

Lusa/Fim

PR José Ramos-Horta deverá reocupar cargo dentro de um mês - presidente Parlamento Nacional

Lisboa, 11 Fev (Lusa) - O chefe de Estado timorense, José Ramos-Horta, deverá reocupar o cargo dentro de um mês, disse hoje em Lisboa o presidente do Parlamento Nacional, Fernando de Araújo "Lasama".

O dirigente timorense, que falava no final da audiência de 55 minutos no Palácio de Belém com o presidente Aníbal Cavaco Silva, manifestou-se satisfeito com a evolução do estado de saúde de José Ramos-Horta, alvo de um atentado em Díli.

"Espero que o Presidente (Ramos-Horta) recupere (...) que não leve muito tempo, espero que dentro de um mês o presidente regressará para assumir as suas responsabilidades", destacou.
Homens armados tentaram matar José Ramos-Horta e o primeiro-ministro timorense, Xanana Gusmão, em dois ataques concertados.

O ataque contra Ramos-Horta foi liderado pelo major Alfredo Reinado, que foi morto no incidente.

Ramos-Horta foi ferido a tiro e teve de ser submetido a uma intervenção cirúrgica no hospital militar australiano em Díli e foi transferido para uma unidade de cuidados intensivos do hospital de Darwin, Austrália, onde foi sujeito a uma segunda operação.

De acordo com um elemento da segurança do primeiro-ministro, o tenente Gastão Salsinha, um dos peticionários que abandonaram as forças armadas em 2006, comandou o ataque contra Xanana Gusmão, que saiu ileso.

Devido à incapacidade actual de Ramos-Horta, Fernando de Araújo deverá assumir interinamente, no regresso dentro de dias a Díli, o cargo de Presidente da República.

Na audiência com Cavaco Silva, o presidente do parlamento timorense disse à saída aos jornalistas que informou o chefe de Estado português da melhoria do estado de saúde de Ramos-Horta.

"O presidente Ramos-Horta está a melhorar e o Presidente Cavaco Silva manifestou preocupação e a sua solidariedade com o povo de Timor-Leste", disse.

"Os dirigentes timorenses, de que eu faço parte, continuam a contar sempre com o apoio do Presidente de Portugal, com o povo português e com os amigos jornalistas que estão sempre atentos à situação em Timor-Leste", acrescentou.

Fernando de Araújo "Lasama" acredita que os acontecimentos em Díli evidenciam uma tentativa de golpe de Estado.

"Foi uma tentativa de golpe de Estado. Se eu estivesse em Timor-Leste também seria um alvo", considerou, salientando que a situação criada pela acção de Alfredo Reinado e Gastão Salsinha "é muito grave".

"A situação é muito grave. Foi um crime muito sério contra o Estado de Timor-Leste", adiantou.

EL.

Lusa/Fim

Timor-Leste: Tropas e polícias australianos a caminho, fragata chega terça-feira ao porto de Dili

Sidnei, Austrália 11 Fev (Lusa) - Os 120 militares e 70 polícias australianos enviados de emergência para Díli já partiram da cidade australiana, devendo chegar a Díli, em três aviões C-130, terça-feira, confirmou o ministro da Defesa australiano.

Joel Fitzgibbon disse à rádio pública ABC, em Sidnei, que além das tropas está também a caminho a fragata HMAS Perth que ficará no porto de Díli como "mensagem clara" para quem possa querer destabilizar a situação no terreno.

"A situação está calma mas a experiência histórica demonstra que os efeitos de casos como este em Timor-Leste se sentem um pouco mais tarde", disse.

"A decisão de posicionar tantos efectivos no terreno é de deixar uma mensagem clara aos rebeldes ou a qualquer outro que possa estar a pensar mudar essa situação calma, de que estamos muito apostados em manter a calma e de que tomaremos qualquer medida para garantir isso", afirmou.

O envio das tropas, polícias e da fragata é, segundo Fitzgibbon, um "sinal sério" de que Camberra está empenhada em "ajudar a manter a lei e a ordem", demonstrando a eventuais elementos problemáticos que "há uma força significativa no terreno".

Questionado sobre se com mais um reforço de tropas e polícias a Austrália era agora "a lei" em Timor-Leste, Fitzgibbon insistiu que "o governo timorense é soberano" e que Camberra apoia "os esforços de consolidar a democracia", estando preparada, através do espaço internacional, "para ajudar rapidamente se esse apoio for pedido".

Recorde-se que as autoridades timorenses solicitaram a Camberra o envio de um reforço de militares, tendo o primeiro-ministro australiano Kevin Rudd confirmado uma resposta favorável a esse pedido, poucas horas depois.

Sobre o futuro no terreno, Joel Fitzgibbon manifestou-se esperançado que os apoiantes de Alfredo Reinado - morto no ataque á casa do presidente timroense José Ramos-Horta, que foi baleado - "percebam que estão sem líder e que o jogo está perdido, entregando-se".
"Espero que o sentido comum prevaleça mas não podemos garantir isso e daí o reforço de tropas, para qualquer eventualidade", afirmou.

Joel Fitzgibbon escusou-se a avançar detalhes operativos sobre as funções dos efectivos adicionais, limitando-se a afirmar que a força em Timor-Leste é "bem treinada, flexível e com meios", estando "preparada para fazer o que for pedido pelo governo soberano e o que seja necessário para manter a lei e a ordem".

"Estamos determinados a fazer o que seja necessário para garantir que a democracia prevalece, que o governo soberano está sólido e seguro e que a lei e ordem perdura", afirmou.

O governante recordou que a Austrália tinha antecipado já uma presença a médio prazo em Timor-Leste ainda que "há apenas dois dias" a situação suscitasse alguns debates sobre se deveria haver uma redução de tropas australianas, dada a situação calma.

"Não queremos para já falar de um calendário. Há dois dias pensávamos que Timor-Leste estava calmo e estável e até podíamos pensar em retirar tropas. Agora decidimos não fazer isso. Teremos que reavaliar isso", afirmou.

Apesar da situação em Díli, manifestou-se esperançado que os ataques de domingo (segunda-feira, data local) tenham sido "um evento isolado" e que os rebeldes se possam agora "entregar", mantendo-se a calma "em Díli e no resto do país.

ASP.
Lusa/Fim

In Timor Leste, UN Police "Refused" to Help Horta, Decline to Answer Questions

Byline: Matthew Russell Lee of Inner City Press at the UN: News Analysis

UNITED NATIONS, February 11 -- In the aftermath of a daring double-assassination attempt in Timor Leste, there were questions concerning the UN that no one, it seemed, wanted to answer. After President Jose Ramos Horta was shot, UN police secured the area but did not move to help or transport him, according to the Australian Broadcasting Corporation. Inner City Press raised this very report at the noon briefing at UN headquarters on Monday, and was told that the UN had not been in charge of Ramos Horta's security. Fine -- but why, once he was shot, didn't they help?

After the Security Council adopted a somewhat fill-in-the-blanks Presidential Statement, deploring the shooting and calling for calm, Inner City Press asked the statement's proponent, South African Ambassador Dumisani Kumalo, about the ABC's report. Amb. Kumalo replied that it was not helpful to be assessing blame. Video here. But will the shooting cause any changes in the security mandate of the UN Mission in Timor Leste, UNMIT? Amb. Kumalo said he didn't think so. When the shootings took place, the head of UNMIT, Atul Khare, had been in New York to briefing the Council on Thursday. He set off flying for Dili, but it "takes time" to get there, Amb. Kumalo said.

Jose Ramos Horta in happier times: UN Police not shown then or now

The injunction not to blame anyone is not followed by Ramos-Horta's brother in law Joao Carrascalao, who is also the leader of the Timorese Democratic Union and a member of the State Council. Carrascalao told ABC that "we advised the United Nations Police who went to the scene but 300 meters before reaching there, they refused to proceed and the President was lying on the road... more than half an hour bleeding and losing a lot of blood. The United Nations Police didn't take action until the Portuguese General got there. That's one of the worst things that could happen to this country; have police from everywhere, everyone within one system and mostly looking after themselves than looking after the situation here."

In a press conference Dili, in the Obrigado Barracks, Khare's fill-in Finn Feske-Nielsen was asked why "UN Pol[ice] attended the incident where the President was shot this morning, yet didn't approach him to give him medical assistance." Feske-Nielsen said "we shall obviously look into it to see." Watch this site.

* * *

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Tradução:

Em Timor-Leste, polícia da ONU “recusou” ajudar Horta, declina responder a perguntas

Byline: Matthew Russell Lee of Inner City Press at the UN: News Analysis

NAÇÕES UNIDAS, Fevereiro 11 – No seguimento duma dupla tentativa ousada de assassinato em Timor-Leste, há questões que dizem respeito à ONU e que parece, ninguém, quis responder. Depois do Presidente José Ramos Horta ter sido baleado, a polícia da ONU montou segurança na área mas não se mexeu para o ajudar ou para o transportar, de acordo com a Australian Broadcasting Corporation. Inner City Press levantou esta muito importante notícia na conferência de imprensa realizada no fim do dia na sede da ONU na Segunda-feira, e foi-lhe dito que a ONU não tinha a responsabilidade da segurança de Ramos Horta. Bom – mas porque é que, quando ele foi baleado, não o ajudaram?

Depois do Conselho de Segurança ter adoptado uma muito vaga Declaração Presidencial, lamentando o baleamento e apelando à calma, a Inner City Press perguntou ao proponente da Declaração, o embaixador da África do Sul Dumisani Kumalo, sobre a notícia da ABC. O embaixador Kumalo respondeu que não ajudava estar a averiguar culpas. Video aqui. Mas irá o baleamento causar algumas mudanças no mandato da segurança da Missão da ONU em Timor-Leste, a UNMIT? O embaixador Kumalo disse que pensa que não. Quando o baleamento ocorreu, o responsável da UNMIT, Atul Khare, estava em Nova Iorque par air dar informação ao Conselho na Terça-feira. Ele preparou-se para voar para Dili, mas "demora " chegar lá, disse o embaixador Kumalo.

José Ramos Horta em tempos mais felizes: polícia da ONU não se viu então nem agora

A imposição de não culpar ninguém não foi seguida pelo cunhado de Ramos-Horta, João Carrascalão, que é também o líder da União Democrática Timorense e membro do Conselho de Estado. Carrascalão disse à ABC que "aconselhamos a Polícia da ONU que foi para o local mas que ficou a 300 metros a ir até lá, mas eles recusaram assim proceder e o Presidente esteva deitado no chão... mais de meia hora a sangrar e a perder muito sangue. A Polícia da ONU não agiu até lá chegar a GNR Portuguesa. Isto foi uma das piores coisas que podia acontecer neste país; ter policies de todo o lado, todos dentro do sistemas mas a olharem principalmente por eles próprios em vez de olharem para a situação aqui."

Numa conferência de imprensa em Dili, nas Obrigado Barracks, ao substituto de Khare, Finn Feske-Nielsen foi perguntado porque é que "a Polícia da ONU atendeu o incidente onde o Presidente foi baleado esta manhã, contudo nem se aproximou dele nem lhe deu assistência médica." Feske-Nielsen disse "iremos obviamente analisar e ver isso." Observem este site.

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In Timor Leste, UN Police "Refused" to Help Horta, Decline to Answer Questions

Byline: Matthew Russell Lee of Inner City Press at the UN: News Analysis

UNITED NATIONS, February 11 -- In the aftermath of a daring double-assassination attempt in Timor Leste, there were questions concerning the UN that no one, it seemed, wanted to answer. After President Jose Ramos Horta was shot, UN police secured the area but did not move to help or transport him, according to the Australian Broadcasting Corporation. Inner City Press raised this very report at the noon briefing at UN headquarters on Monday, and was told that the UN had not been in charge of Ramos Horta's security. Fine -- but why, once he was shot, didn't they help?

After the Security Council adopted a somewhat fill-in-the-blanks Presidential Statement, deploring the shooting and calling for calm, Inner City Press asked the statement's proponent, South African Ambassador Dumisani Kumalo, about the ABC's report. Amb. Kumalo replied that it was not helpful to be assessing blame. Video here. But will the shooting cause any changes in the security mandate of the UN Mission in Timor Leste, UNMIT? Amb. Kumalo said he didn't think so. When the shootings took place, the head of UNMIT, Atul Khare, had been in New York to briefing the Council on Thursday. He set off flying for Dili, but it "takes time" to get there, Amb. Kumalo said.

Jose Ramos Horta in happier times: UN Police not shown then or now

The injunction not to blame anyone is not followed by Ramos-Horta's brother in law Joao Carrascalao, who is also the leader of the Timorese Democratic Union and a member of the State Council. Carrascalao told ABC that "we advised the United Nations Police who went to the scene but 300 meters before reaching there, they refused to proceed and the President was lying on the road... more than half an hour bleeding and losing a lot of blood. The United Nations Police didn't take action until the Portuguese General got there. That's one of the worst things that could happen to this country; have police from everywhere, everyone within one system and mostly looking after themselves than looking after the situation here."

In a press conference Dili, in the Obrigado Barracks, Khare's fill-in Finn Feske-Nielsen was asked why "UN Pol[ice] attended the incident where the President was shot this morning, yet didn't approach him to give him medical assistance." Feske-Nielsen said "we shall obviously look into it to see." Watch this site.

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O que não incomoda a PBV...

H. Correia deixou um novo comentário na sua mensagem "A insensatez das palavras de Pedro Bacelar de Vasc...":

Não percebo onde está o nexo de causalidade entre os atentados contra o PR e PM e o direito que assiste à Fretilin de não concordar com o actual Governo ou de pôr em causa a sua constitucionalidade.

Será que PBV concorda com a ameaça de prisão recentemente feita por Xanana aos jornalistas.

Será que temos que andar (quase) todos com uma rolha na boca?

Para além disso, a Fretilin é apenas um partido político, sem responsabilidades nas decisões do País, por mais "insensatez" que tenha. O mesmo já não se pode dizer do PR ou do PM,que têm poderes de Estado. Eles, sim, podem influenciar o rumo dos acontecimentos, como aliás veio a acontecer.

FACTO 1: PR e PM não respeitaram a Constituição, a Lei e a Justiça ao interferirem com esta e ordenarem às forças de segurança para não cumprirem um mandado do tribunal. Inclusive um juíz de Direito foi insultado publicamente pelo PR.

FACTO 2: Se Reinado tivesse sido julgado, condenado e preso, não teria liberdade para assaltar esquadras de polícia e fazer atentados contra a vida do PR e do PM.

Juntando estes dois factos, pela lógica concluimos que a conduta ilegal e antidemocrática de PR e PM criaram as condições para que ocorresse o atentado de que ambos foram vítimas.

É estranho que isto não incomode PBV.

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
This is my blogchalk: Timor, Timor-Leste, East Timor, Dili, Portuguese, English, Malai Azul, politica, situação, Xanana, Ramos-Horta, Alkatiri, Conflito, Crise, ISF, GNR, UNPOL, UNMIT, ONU, UN.