sábado, junho 30, 2007

Xanana tenta desalojar a Fretilin do poder

Público – 30.06.2007 - 08h11

Legislativas em Timor: Urnas já fecharam mas não se prevê uma maioria absoluta

Adelino Gomes
As urnas de voto para as legislativas, a que concorrem 12 partidos e duas coligações, encerraram às 8h00 de hoje (hora de Lisboa), em Timor-Leste, após uma campanha que decorrreu, segundo a ONU, de forma "largamente pacífica", embora marcada pela morte duas pessoas, uma das quais segurança de Xanana Gusmão, e por actos intermitentes de violência, que provocaram dezenas de feridos, quase todos ligeiros.
O ex-primeiro-ministro, Mari Alkatiri, e o ex-presidente, Xanana Gusmão, polarizaram a campanha eleitoral, com o antigo comandante supremo da resistência a liderar uma nova formação política, o CNRT, que pretende desalojar do poder a Fretilin, detentora da maioria absoluta de lugares no Parlamento Nacional.

Tanto os responsáveis da Fretilin como os do CNRT se manifestam convencidos da vitória, mas observadores citados pela imprensa internacional não acreditam que qualquer dos contendores obtenha maioria absoluta de modo a governar sozinho.

Independentemente dos resultados, o Presidente e Nobel da Paz, José Ramos-Horta, aliado do seu antecessor na crise de Abril de 2006, quando um terço do contingente militar abandonou as Forças de Defesa do país (F-FDTL), apela à constituição de um governo de unidade nacional, pois não há, em Timor-Leste, hoje, "um único partido capaz de erguer um único governo pacífico, de assegurar a estabilidade e uma boa economia, obtendo a confiança e a ajuda da comunidade internacional". O CNRT concorda com esta proposta, tendo anunciado já que, se vencer as eleições, convidará o dirigente do PSD e antigo governador no tempo indonésio, Mário Carrascalão, para a chefia do Governo, entregando a presidência do Parlamento a Xanana Gusmão.
Embora os seus dirigentes se mostrem mais reservados, a Fretilin poderá aceitar igualmente a proposta presidencial.

Em declarações aos jornalistas no comício de encerramento da campanha do CNRT, Ramos-Horta disse que a maioria dos partidos com quem falou sobre ela "inclusive a Fretilin, estão abertos para formar um governo de unidade nacional".

Apesar das chuvas, que dificultam as deslocações, e da maior complexidade de processos do que nas recentes eleições presidenciais, os responsáveis da Missão das Nações Unidas para Timor-Leste (UNMIT) declararam que a votação tinha "todas as condições para começar e terminar à hora marcada", nas 708 estações e nos 520 centros de voto espalhados pelo país.

O acto eleitoral - o terceiro em menos de três meses - está a ser fiscalizado por 3 mil observadores de 45 países e organizações nacionais e internacionais. Portugal, a União Europeia e a CPLP enviaram delegações. Os resultados oficiais só devem ser anunciados a meio da próxima semana.

Dinheiros do petróleo

Atravessada pelo choque de personalidades mais do que de programas, a campanha eleitoral assistiu ao esgrimir de argumentos sobre os grandes problemas que Timor-Leste enfrenta (a pobreza e o desemprego à frente de todos) e ao modo como o futuro Governo deve aplicar os dinheiros gerados pelo petróleo.

A oposição, e em particular o CNRT, na linha das posições de Ramos-Horta e de outros candidatos presidenciais, acusa o partido ainda no poder de ter deixado milhões de dólares a apodrecer numa conta no estrangeiro, enquanto o povo timorense sofre as maiores privações.
"Não é apenas uma questão de gastar o dinheiro do fundo do petróleo, mas de gastá-lo responsavelmente", respondeu a Fretilin, lembrando que os mil milhões de dólares de que o país dispõe neste momento no Fundo Petrolífero - aliás, aprovado por unanimidade no Parlamento - "foi gerado por recursos não-renováveis", pelo que "precisa de ser investido em actividades que sejam sustentáveis".

Após propostas concretas de distribuição de dinheiro pelos mais necessitados, vindas do lado dos seus adversários e do presidente Ramos-Horta, a Fretilin anunciou que se dispõe a entregar 10 mil dólares por cada suco (equivalente a freguesia) dos 13 distritos do país e a investir 100 milhões de dólares na criação de empregos.

Governar com "transparência", "privilegiar" a justiça, saúde e educação e "combater" a corrupção foram as bandeiras apresentadas por Xanana Gusmão.

Para além dos resultados do CNRT (o mesmo é dizer de Xanana Gusmão, a sua única cabeça de cartaz), os analistas olharão com especial interesse para o número de lugares que obterá o Partido Democrático (PD), o segundo partido mais votado nas últimas legislativas.

O seu líder, Fernando "Lasama" Araújo, conquistou o terceiro lugar na primeira volta das presidenciais, a escassa distância de Ramos. É visto, neste momento, como a principal figura da geração de políticos que se prepara para suceder aos velhos líderes da resistência, representados por Xanana, Horta e Alkatiri.

Coligação a dois ou a três levará Fretilin à oposição

Diário de Notícias – 30 de Junho de 2007

Armando Rafael
Governo poderá juntar CNRT, PD e PSD/ASDT

Quem será o próximo primeiro-ministro de Timor-Leste? Esta é a pergunta que todos fazem no dia em que os timorenses vão às urnas para escolherem os 65 deputados do novo Parlamento. O que, em termos práticos, sucederá pela primeira vez, uma vez que as eleições de 2001 se destinavam a eleger uma Assembleia Constituinte.

Na altura, previa-se que as legislativas se realizariam um ano depois. Mas por decisão unânime dos deputados, que optaram por transformar a Constituinte num Parlamento, isso nunca ocorreu.

Seis anos depois tudo mudou no país, salvo a falta de empregos e a pobreza extrema em que ainda vivem muitos timorenses.

Xanana Gusmão deixou de ser Presidente da República, criou um partido - Congresso Nacional para a Reconstrução de Timor-Leste (CNRT) - e pretende afastar a Fretilin e o ex-primeiro-ministro Mari Alkatiri do poder. Contando, para isso, com o apoio dos restantes partidos, que pretendem recorrer às verbas de um Fundo Petrolífero que já ultrapassou os mil milhões de dólares. A começar pelo PD e pelo PSD/ASDT. Só que ninguém sabe quem poderá liderar esse Executivo. Xanana já disse que preferia ser presidente do Parlamento, sugerindo que Mário Carrascalão, que lidera a coligação PSD/ASDT, poderia ser o primeiro-ministro ideal para o pós-Fretilin. Tudo dependerá de se saber quem fica à frente, partindo do pressuposto que nem a Fretilin, nem o CNRT, PSD/ASDT ou PD estão em condições de obter uma maioria absoluta.

Uma tal situação deixaria tudo ou quase tudo em aberto. Mesmo que a Fretilin, que tem liderado o país, ainda conseguisse vencer as eleições e suplantar o CNRT.
A avaliar pelos resultados das presidenciais que se realizaram há pouco mais de um mês, e em que Ramos-Horta bateu o candidato da Fretilin, Francisco Guterres "Lu-Olo", não é totalmente impossível que o partido de Mari Alkatiri possa vencer as legislativas. Mas se o conseguir, ficará limitado a uma maioria relativa e terá de passar à oposição, não tendo com quem se coligar. Pelo menos, nesta fase.

Se assim for, o novo Governo timorenses acabará por sair de uma plataforma que reúne CNRT, PD e PSD/ASDT. Aos quais se poderão juntar outras formações, desde que elas ultrapassem a barreira dos três por cento imposta pela nova lei eleitoral, que reduziu o número de deputados (de 88 para 65) e substituiu os 13 distritos por um único círculo eleitoral.

O que, para já, ninguém consegue prever é o peso real da Undertim, liderada pelo ex-guerrilheiro Cornélio Gama (L7), ou do Partido da Unidade Popular, que é presidido por Fernanda Borges, uma ex-ministra das Finanças que é sobrinha do Bispo de Baucau, D. Basílio do Nascimento. E que tenderão a juntar-se ao CNRT, PSD/ASDT e PD. Contra a Fretilin.

Timor-Leste/Eleições: CNE destaca grande afluência às urnas

Lusa – 30 de Junho de 2007, 10:05

Díli - A Comissão Nacional de Eleições (CNE) de Timor-Leste destacou hoje que os eleitores timorenses "votaram em grande número" nas legislativas que decorreram no país e cujas urnas já encerraram.

Numa nota de imprensa e sem adiantar números, a CNE sublinha a satisfação por a votação ter decorrido "pacificamente" e que a parte logística permitiu que as urnas abrissem e fechassem à hora prevista.

"Como vem sendo hábito, a grande maioria dos eleitores votou às primeiras horas da manhã. A adesão de eleitores foi aparentemente elevada, embora em alguns distritos se tenha notado uma ligeira redução do número de votantes, comparativamente às eleições presidenciais", lê-se no documento.

"À hora do fecho das urnas, as equipas da CNE no terreno reportaram que o processo eleitoral decorreu com normalidade. Os procedimentos de votação, tais como controlo de filas, identificação dos eleitores, verificação e colocação de tinta nos dedos, foram respeitados de forma eficaz pelos oficiais das Estações de Voto", acrescenta-se.

No entanto, refere-se no documento, foram detectados alguns problemas que, embora menores, afectaram temporariamente algumas assembleias de voto.

Entre eles, a CNE registou a entrega de boletins de voto no local errado, outros sem número de série ou manchados, menores de idade que tentaram votar e a existência de materiais de propaganda política em algumas estações de voto.

"Todas estas questões foram resolvidas correctamente pelos oficiais das assembleias de voto, com a ajuda das equipas do STAE (Serviço Técnico de Administração Eleitoral) e da CNE, sob a supervisão dos Comissários da CNE", sublinha-se no documento.

A CNE adianta ainda que, cerca das 16:30 locais (08:30 em Lisboa), meia-hora após o encerramento da votação, as urnas, já seladas, começaram a ser transportadas para as Assembleias de Apuramento Distritais.

É aí que se vai proceder à contagem dos votos, a partir das 07:00 locais de domingo (23:00 de hoje em Lisboa).

Os resultados estarão disponíveis através da Internet e serão actualizados de quatro em quatro horas, no sítio da CNE em: www.cne.tl.

JSD/PRM-Lusa/Fim

Timor-Leste/Eleições: "Acredito ser abrangido pela amnistia" - Rogério Lobato

Lusa - 30 de Junho de 2007, 08:04

Díli - Rogério Lobato acredita que vai ser abrangido por uma amnistia, declarou o ex-ministro do Interior de Timor-Leste à Lusa na prisão de Becora, em Díli, pouco antes de votar para as legislativas que hoje se realizam.

"A minha libertação não depende do resultado das eleições", sublinhou o ex-ministro do Interior.

"Existe um processo que está a correr e acredito que eu seja abrangido por esse processo", acrescentou Rogério Lobato em declarações à Lusa, momentos antes de abrir a estação de voto instalada ao princípio da tarde na biblioteca da prisão.

O ex-ministro do Interior foi condenado em Março de 2007 pelo seu envolvimento na crise política e militar de 2006, como autor moral de homicídios relacionados com a distribuição de armas a civis, por ele ordenada.

Desde 10 de Maio que Rogério Lobato está preso em Becora, depois de perder um recurso do acórdão que o condenou a sete anos e meio de prisão.

"A promulgação da lei não depende do partido", afirmou Rogério Lobato quando interrogado sobre a influência dos resultados eleitorais na decisão de promulgar a Lei da Verdade e Clemência, aprovada pelo Parlamento no início de Junho.

"Como primeiro-ministro, José Ramos-Horta foi das pessoas que foi defender a lei ao Parlamento. Agora como Presidente da República, não pode entrar em contradição com aquilo que defendeu em público", considerou Rogério Lobato.

"Quero a vitória da Fretilin", frisou o ex-dirigente do partido maioritário, que apresentou por carta a demissão dos cargos que ocupava antes de ser preso.

"Eu sou e sempre serei militante da Fretilin, independentemente do que possa ter acontecido", declarou Rogério Lobato sobre o seu futuro político.

"Nunca lutei na Fretilin para ocupar cargos. Lutei na Fretilin por ideais, pela independência de Timor, e os ideais continuam a ser os mesmos".
Rogério Lobato, acompanhado pelo director em exercício da prisão de Becora, foi o primeiro a votar, cerca das 14:15 (06:15 em Lisboa), à frente de uma fila de presos.

Becora tem neste momento 222 detidos, segundo afirmou à Lusa um dos responsáveis pela administração da principal prisão de Timor-Leste.
"Sou um cidadão timorense. Estou preso e já perdi um direito humano, o direito à liberdade. Pelo menos tenho direito a voto", explicou o ex-ministro do Interior.

"É uma boa iniciativa" ser dada à população prisional a hipótese de votar, declarou Rogério Lobato.

"Não tenho dúvidas de que o meu partido vai ganhar", afirmou também o fundador das Falintil.

"O novo governo tem que ter boa governação para este país e tem que ter paciência com este povo", disse o ex-ministro depois de votar.
"Estou contente porque perder os direitos não significa perder o direito de voto, que é um direito de cidadania", acrescentou Rogério Lobato.
PRM-Lusa/Fim

Timor-Leste/Eleições: Urnas encerraram, afluência menor que presidenciais

Lusa - 30 de Junho de 2007, 08:42

Díli - As urnas encerraram em Timor-Leste às 16:00 (08:00 em Lisboa), numa votação menos participada do que as eleições presidenciais e sem incidentes de segurança graves, além de três alegadas situações de fraude sob investigação.

"Registámos uma menor afluência do que nas presidenciais" de 09 de Abril e 09 de Maio, afirmou à Lusa uma fonte do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE), "embora seja demasiado cedo para quantificar o nível de participação".

Todas estações de voto funcionaram, algumas com algum atraso devido à dificuldade de entregar os materiais eleitorais em sítios de difícil acesso.

As poucas irregularidades verificadas durante as legislativas relacionam-se com tentativas de fraude, afirmou a mesma fonte do STAE.
Em Metinaro, uma localidade com uma população de deslocados a leste de Díli, uma mulher apresentou queixa à mesa de voto por lhe terem dado um boletim já preenchido.

A presença de forças internacionais evitou a escalada da discussão que se seguiu, uma vez que "os outros eleitores pensaram que a mulher estava a tentar votar duas vezes", contou à Lusa fonte policial no local.
Em Ainaro, centro, um jovem foi detido pela polícia quando foi apanhado a tentar votar com o cartão de eleitor do pai, depois de ter votado com o seu cartão.

Em Suai, sudoeste, está também sob investigação uma irregularidade com boletins de voto.
PRM/JSD-Lusa/Fim

Urnas já abriram

Rádio Renascença – 30 Junho 2007 – 1:31

Os eleitores timorenses já começaram a votar para as eleições legislativas. As urnas abriram às 23h00 (hora continental portuguesa).
O secretário-geral da FRETILIN foi o primeiro líder político a cumprir o seu dever cívico, numa assembleia de voto da capital, Díli.

Mari Alkatiri insiste que não quer ser novamente Primeiro-ministro, mas mostra que mantém vivo o conflito com Xanana Gusmão, um candidato assumido à chefia do Governo.
“Xanana quer destruir a FRETILIN mas, fundamentalmente, quer destruir-me a mim. Eu não sou inimigo de Xanana, não quero destruir o Xanana, quero é que o Xanana se coloque no seu lugar”, disse o antigo Primeiro-ministro timorense ao correspondente da Renascença em Timor-Leste, Sérgio Tavares.

Xanana Gusmão deve ser o próximo a votar. O ex-Presidente da República concorre pelo recém criado CNRT e quer continuar a colaborar com Ramos Horta, que recentemente foi eleito para chefe de Estado.
Som: http://www.rr.pt/PopUpMedia.Aspx?&FileTypeId=1&FileId=336186&contentid=211923

Timor/Eleições: 98 por cento das urnas abriu à hora prevista

00:54 sábado, 30 JUN 07

Eleições: 98 por cento das urnas abriu há hora prevista
Díli, 30 Jun (Lusa) - Cerca de 98 por cento das urnas das eleições legislativas de hoje em Timor-Leste abriu à hora prevista, estando ainda em curso o envio dos boletins de voto para as zonas mais remotas do distrito de Viqueque (centro sul).

Os dados foram avançados à Agência Lusa por fonte do Secretariado Técnico de Administração Eleitoral (STAE) cerca das 08:00 locais (00:00 em Lisboa), e correspondem a um primeiro balanço efectuado uma hora após a abertura das urnas.

Os restantes 2 por cento das assembleias de voto deverão abrir ao longo da próxima hora, uma vez que todo o material eleitoral está a ser distribuído por helicópteros, que se deslocam para as áreas mais inacessíveis de Covalima, Bobonaro e Manafachi, acrescentou a fonte.
Ainda não existem dados sobre a afluência às urnas.

O resultado "animador" da abertura das urnas a tempo deveu-se, segundo a fonte, a um trabalho feito todo ao longo da noite, tendo fontes das forças de segurança garantido que não se registou, até agora, "rigorosamente nenhum incidente".

Cerca 530 mil eleitores vão hoje às urnas, que encerram às 16:00 locais (08:00 em Lisboa) para escolher os novos 65 deputados ao Parlamento nacional, a que se apresentam 12 partidos e duas coligações.
JSD/PRM.

Blog do diário de um reporter em Díli (Expresso)

Blog Hotel Timor .

O repórter Micael Pereira regressa a Timor-Leste, depois de ter acompanhado a crise que começou em 2006 com confrontos entre militares e polícias, levando à resignação do então primeiro-ministro Mari Alkatiri e à prisão do ministro do Interior Rogério Lobato.

Com as eleições legislativas, a 30 de Junho de 2007, os dois maiores rivais políticos do país enfrentam-se nas urnas num ajuste de contas sobre quem foi realmente responsável pela crise aos olhos do povo.

Xanana Gusmão ou Mari Alkatiri: quem irá tomar conta de Timor? E será que isso significa o regresso definitivo à paz?

Ver as Fotogalerias:

A crise de 2006 em Timor
Eleições em Timor

Timor-Leste/Eleições: "Xanana quer destruir-me", diz Mari Alkatiri ao votar

00:59 sábado, 30 JUN 07

Díli, 30 Jun (Lusa) - O secretário-geral da Fretilin, Mari Alkatiri, afirmou hoje que Xanana Gusmão, ex-presidente e líder do Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste (CNRT), quer destruí-lo, mas manifestou-se "convicto" de que o seu partido vai vencer as eleições legislativas.

Em declarações aos jornalistas, momentos após votar no Bairro do Farol, em Díli, onde reside e depositou o boletim na urna cerca das 08:30 locais (00:30 em Lisboa), Alkatiri insistiu que não vai para o governo e que quer preparar o partido para as próximas eleições gerais, em 2012.

"Xanana (Gusmão) não quer destruir a Fretilin. Quer destruir-me a mim", afirmou Alkatiri, que foi primeiro-ministro entre 2002 e 2006, tendo pedido a demissão na sequência de uma querela política.

Xanana foi, aliás, o principal alvo das críticas de Alkatiri durante o quase um mês de campanha eleitoral, que terminou quarta-feira.

O secretário-geral da Fretilin, que votou ao mesmo tempo e ao lado do líder do partido, Francisco Guterres "Lu Olo", afirmou que o seu partido partiu para as legislativas "já com uma maioria relativa" e reivindicou "vitória" na votação que hoje se prolonga até às 16:00 locais (08:00 em Lisboa).

Alkatiri, escusando mais uma vez adiantar qual o eventual primeiro-ministro a indicar pela Fretilin em caso de vitória, garantiu que não estará no eventual executivo a formar pelo partido, também em caso de vitória, e que quer preparar a nova geração de políticos da sua força política.

JSD/PRM.

Faltam duas horas

As secçoes de voto encerram às quatro da tarde e a contagem nos centros distritais vai realizar-se amanha, Domingo, entre as sete da manha e as dez da noite.

Boletins de voto com furo no CNRT

Uma eleitora protestou existirem irregularidades numa seccao de voto em Metinaro porque a funcionaria do STAE entregou-lhe um boletim de voto com um furo no CNRT.

Os observadores internacionais registaram o incidente e essa seccao de voto fechou.

Nao se registaram outros incidentes no resto do pais.

STAE - June 30: Morning Update on Material Delivery and Opening of Polling

REPÚBLICA DEMOCRÁTICA DE TIMOR LESTE
MINISTÉRIO DA ADMINISTRAÇÃO ESTATAL
SECRETARIADO TÉCNICO DE ADMINISTRAÇÃO ELEITORAL (STAE)

Rua de Caicoli, Dili, Tel. 3317445 / 3317446

After an arduous material delivery operation hampered by poor weather and damaged infrastructure, STAE is pleased to announce the successful completion of material delivery to polling centres and stations nationwide.
While material was delivered to almost all of Timor Leste’s 520 polling centers and 708 polling stations on time yesterday, 3 polling centres and 3 polling stations in Viqueque were served by air early this morning.
Meanwhile 2 polling centres in Fahinehan and Bubususo, in Manufahi district, were supplied this morning after an all-night trek through jungle and mountain by STAE personnel and PNTL.
Yesterday the electoral material was en-route from Same, until the convoy became bogged down at Orana. With no other means to reach the polling locations, the team moved on foot to transport the material necessary to enable voters cast their ballots at these remote locations - part of the southern region worst-affected by the recent poor weather and ensuing deterioration of transport and communications infrastructure.
This morning most of the 520 polling centres and 708 polling stations were reported as having opened on time. Information gathered immediately after the opening of polling shows that all polling centres have opened by 7.30am latest, with the following exceptions. Lucuria polling centre in Liquica opened at 8am, while Sa Nain polling centre in Manatuto was out of communications reach. Difficulties in establishing communications with and within Zumulai subdistrict in Covalima means that accurate data on polling centre opening is not yet available. The polling centres in Viqueque served by helicopter this morning opened between 8.30 and 9am.
* Please note that this information is not complete, due to difficulties in establishing communications with remote locations.
Polling will continue until 4pm. After closing material will be transported from all polling centres and stations to the thirteen counting centres established at each district capital. Counting will commence at 7am tomorrow morning July 1.
STAE will hold a press conference at STAE HQ at 6pm today June 30.
For more information please contact :
Dulce Junior (Tetum) 7288425
Fernanda Lopes (Portuguese) 7311839 lopes@un.org
Simon Roughneen (English) 7345008 simonr@un.org
Dili, 30 June 2007
Tomas do Rosario Cabral
STAE Director

UNMIT – MEDIA MONITORING - Friday, 29 June 2007

National Media Reports

Letter from Dili Diocese: If it’s true, Dili Diocese is going against electoral law

In response to the letter from the Diocese of Dili regarding its support for the National Unity Party (PUN), the President of Democratic Party (PD), Fernando de Araujo Lasama, reportedly said that if it is true then the church is making a mistake.

CNE Spokesperson Angelina Sarmento said that the CNE considers this a violation of the electoral law. She said that if a complaint is received by the CNE, it will be referred to the Interior Ministry for further investigation. (DN)

President of the Republic and President of National Parliament appeal to the nation
President José Ramos-Horta called on the Timorese people to cast their vote on the 30th of June to elect the new leaders of the National Parliament. The President of the National Parliament also appealed to the people to vote in a free and peaceful manner. (DN)

Borges: “PUN does not belong to the Church”
In response to the letter from the Diocese of Dili regarding the church’s support for the National Unity Party (PUN), Fernanda Borges – PUN President – on Thursday (28/6) said that the PUN does not belong to the church and confirmed that the church is not involved in PUN activities. However, she welcomed the Church’s support to improve the lives and future of the Timorese people. (DN)

Estanislau: Respect the results
Prime Minister Estanislau Aleixo da Silva called on all citizens to respect the results of the 30 June Parliamentary Elections and said that the people should give the elected members the opportunity to run the government. (DN)

Finn: “Challenges ahead of Parliamentary Elections”
At the UNMIT press conference held on Thursday (28/6) in Dili, DSRSG Finn Reske-Nielsen said that due to the recent wet weather conditions some additional challenges have come up ahead of the parliamentary elections on 30 June.

He also reminded that “the Elections are the responsibility of Timorese people. The UN is neutral and will provide security and logistical support.” (DN)

CNE refers 17 cases to the Ministry of Interior
CNE Spokesperson Fr. Martinho Gusmão said that the CNE has received 27 complaints from the campaigning period. Out of these, 17 have been confirmed to be related to violent incidents and have been referred to the Ministry of Interior for further investigation. (DN and TP)

State wants Reinado to submit himself to justice
Prime Minister Estanislau Aleixo da Silva informed that the state will not hold a dialogue with the former Commander of the Military Police, Major Alfredo Reinado Alves and his men, as this is the responsibility of the justice system. (TP)

Alfredo: “wining party must repair mistakes”
The former of Military Police Commander, Major Alfredo Reinado Alves, reportedly said that the wining party of the upcoming elections should repair the mistakes made by the ruling party Fretilin. (STL)

UNMIT provides helicopters
At a press conference held by CNE on Thursday (28/6) in Dili, CNE Spokesperson Fr. Martinho Gusmão said that UNMIT provided seven helicopters to assist in the distribution of electoral material. (STL)

STAE Press Release - Timor Leste’s Parliamentary Elections: One Day To Go

As the world’s youngest democracy, Timor Leste faces immense challenges in terms of infrastructure development and basic state capacity. This has been borne out by recent bad weather across much of the country, particularly affecting the southern districts of Bobonaro, Covalima and Ainaro.

Many polling locations have been rendered inaccessible by road. 50 locations require horse and porter support to complete the material delivery to polling centres, given the adverse terrain, recent inclement weather and limited infrastructure in these remote areas.

Operations have been complicated by a hectic last-minute rescheduling of material delivery by air, using UNMIT and International Stabilisation Force (ISF) helicopters, and by land using horses and porters where locations cannot be reached by road.

STAE, along with UNMIT and ISF air support, are working around the clock to deliver material to polling centers cut–off by the heavy rains, which have seen a number of roads and bridges washed away or made impassable. Landslides and fallen trees have blocked roads, while the rain has turned many other roads into quagmires.

Changeable and tempestuous weather conditions and fragile infrastructure means that operations require alteration and updating on an hourly basis, with new challenges and hurdles to electoral material delivery emerging across the country.

Meanwhile today, at all thirteen district capitals, a total of 326 vehicles - combinations of trucks, mini-trucks, 4wd, minibuses and pick-ups – are transporting 652,000 ballot papers and other electoral material to 520 polling centres and 708 polling stations to serve the 529,198 registered voters. Polling begins at 7am tomorrow June 30.

The number of ballots was calculated to provide an additional 20% stock of ballots to meet any contingencies, such as shortfall of ballot papers at a particular polling centre. Timor Leste’s electoral system enables voters to cast their ballot at the polling centre/station of their choice.

Meanwhile the thirteen district capital counting centres are operational and ready to receive the cast ballots and other material from polling stations after the close of voting at 4pm tomorrow.

STAE will update media on polling progress and operations at 12.00 noon tomorrow June 30.
STAE will hold a press conference at STAE HQ at 6pm tomorrow June 30.
For more information please contact :
Dulce Junior (Tetum) 7288425
Fernanda Lopes (Portuguese) 7311839 lopes@un.org

Simon Roughneen (English) 7345008 simonr@un.org

Security Council press statement on Timor-Leste

United Nations Secretary-General - 29 Jun 2007


SC/9068

The following Security Council press statement on Timor-Leste was read out today by Council President Johan C. Verbeke ( Belgium):

The members of the Security Council expressed their full support for the holding of the parliamentary elections in Timor-Leste on 30 June 2007.

The members of the Security Council called upon all parties in Timor-Leste to adhere to the principles of non-violence and to democratic and legal processes to ensure that these elections have a unifying impact and contribute to bringing the people of Timor-Leste together.

They appealed to all people of Timor-Leste to ensure that free, fair and peaceful parliamentary elections take place and that the electoral code of conduct developed by the National Commission on Elections is respected.

The members of the Security Council underlined the need for the international community to continue to provide support to Timor-Leste and welcomed the presence of domestic, as well as international electoral observers in Timor-Leste for these elections.


UN News Centre - 29 June 2007


As Timorese prepare to vote, Security Council appeals for peaceful elections


United Nations Security Council members today expressed their full support for the Timor-Leste parliamentary elections to be held tomorrow and called on the country’s people to ensure that the polls are free, fair and peaceful.

The Council, in a press statement read out by its President, Ambassador Johan C. Verbeke of Belgium “called upon all parties in Timor-Leste to adhere to the principles of non-violence and to democratic and legal processes to ensure that these elections have a unifying impact and contribute to bringing the people of Timor-Leste together.”

The 15-member body called on the people of the small South-East Asian nation, which the UN helped to shepherd to independence in 2002, to “ensure that free, fair and peaceful parliamentary elections take place.”

The members also appealed to the population to respect the National Commission’s electoral Code of Conduct.

Underscoring the importance of the international community’s support in the country, the Council “welcomed the presence of domestic as well as international electoral observers in Timor-Leste for these elections.”

Voters will go to the polls to elect 65 members of Parliament to serve five-year terms.

Yesterday, the UN Integrated Mission in Timor-Leste – known as UNMIT – began distributing ballot papers, with a total of 652,000 ballot papers to be distributed throughout the country and a reserve will be stored in all districts to deal with contingencies.

Also, in a video message yesterday, Secretary-General Ban Ki-moon called on candidates and their supporters “to react to the results in a peaceful manner, and to raise any concerns they may have about the process through the appropriate legal channels.”

Recalling the successful presidential elections of April and May, he said that he “was moved by the graceful transfer of responsibility from the first President to his successor, through the freely expressed will of the people.”

In another development, the UN Development Fund for Women (UNIFEM) has called for increased participation of women in politics.

The fund’s scheme, called Integrated Programme for Women in Politics and Decisions Making, also seeks to raise awareness of the status of Timorese women.

Workshops to draw attention to the electoral process were held last month bringing together experts from the European Union, the National Electoral Commission and the UNIFEM-backed observer group known as KOMEG, along with ten parties participating in the elections.

All of the women representatives endorsed a Women’s Political Platform signed on 28 May, which prioritizes such issues as economic advance and health care for women; justice and security; and media reporting on and for women.

Timor-Leste/Eleições: Levantar cedo e "votar com orgulho"

Lusa - 29 de Junho de 2007, 23:34

Díli - Carlos Xímenes, funcionário público, votou "com orgulho" e abriu às 07:00 de sábado (23:00 de sexta-feira, em Lisboa), as eleições legislativas na estação de voto onde, uma hora depois, são esperados os dirigentes do partido maioritário Fretilin.

"É a terceira vez que sou o primeiro a votar aqui", afirmou Carlos Xímenes, satisfeito por "poder participar na escolha do próximo governo".

O mesmo aconteceu nas eleições presidenciais de 09 de Abril e na segunda volta a 09 de Maio, que elegeu José Ramos-Horta.

"É com orgulho que votamos em Timor-Leste", explicou o funcionário público, que não tinha votado nas eleições da Assembleia Constituinte em 2001 e nas presidenciais de 2002 "porque estava emigrado na Austrália".

Para ser o primeiro a votar, Carlos Xímenes deitou-se "muito cedo para levantar cedo".

As urnas abriram sem problemas à hora prevista e a votação decorre até às 16:00 (08:00 em Lisboa).

"Não houve rigorosamente nenhum incidente durante a noite", declarou à Lusa o comandante distrital da Polícia das Nações Unidas em Díli, Leitão da Silva.

Das eleições de hoje sairá o IV Governo Constitucional de Timor-Leste, para quem Carlos Xímenes tem a mensagem de "haver uma oportunidade para usar o momento e convencer a comunidade a estabelecer a paz em Timor".

Na mesma estação de voto, na escola central do Bairro do Farol, votam o presidente e o secretário-geral da Fretilin, Francisco Guterres "Lu Olo" e Mari Alkatiri, o ex-primeiro-ministro que se demitiu há um ano no auge da crise política.

"A crise pode acabar hoje", concluiu Carlos Xímenes, que aplaude a mudança de contagem das estações de voto para a sede dos distritos.
"Vai ser fácil de controlar o resultado e mais fácil de contar", explicou.
PRM/JSD-Lusa/fim

Timor-Leste/Legislativas: Urnas abrem depois de noite sem incidentes

Lusa - 29 de Junho de 2007, 23:06

Dili - As urnas para as eleições legislativas em Timor-Leste abriram às 07:00 de sábado (23:00 de sexta-feira em Lisboa), depois de uma noite «rigorosamente sem incidentes», segundo o comando da Polícia das Nações Unidas.
PRM/JSD-Lusa/Fim

Noticias

Lusa – 29 Junho 2007 - 16:05


Timor-Leste: Portugal envia mais sete oficiais de justiça ao abrigo de acordo com ONU


Díli - Portugal assinou hoje com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) o envio de sete oficiais de justiça para formação e funções directas no sistema de justiça de Timor-Leste.

O memorando entre Portugal e o PNUD destina-se a resolver necessidades identificadas por Timor-Leste na organização das secretarias dos Tribunais e do Ministério Público, por um período de seis meses, a iniciar na primeira semana de Julho.


O acordo foi assinado pelo embaixador português em Díli, João Ramos Pinto, e pelo representante permanente do PNUD em Timor-Leste, Finn Reske-Nielsen.


Mediante o acordo, os oficiais de justiça continuarão funcionários do Estado português mas passam a trabalhar "sob a orientação geral" do Conselho de Coordenação para o Sector da Justiça (CoC), que integra o ministro da Justiça timorense, o Procurador-Geral da República e o presidente do Conselho Superior de Magistratura.


A formação de profissionais timorenses e o desempenho de funções directas dos oficiais de justiça portugueses insere-se no quadro da cooperação bilateral de Portugal com Timor-Leste e do Programa para o Sistema de Justiça, do PNUD.


No quadro do anterior acordo celebrado entre Portugal e o PNUD, em Outubro de 2006, esteve em Timor-Leste até Maio de 2007 uma missão composta por seis oficiais de justiça.


O Programa do Sistema de Justiça do PNUD tem sido apoiado por Portugal e por outros parceiros internacionais, como a Austrália, Brasil, Estados Unidos da América, Irlanda, Noruega e Suécia.
PRM-Lusa/Fim



TSF – 29 de Junho 07 - 19:48


Cinco mil refugiados no centro de Díli


A poucas horas da abertura das urnas para as legislativas de Timor Leste, a TSF visitou um campo de refugiados, em Díli, onde vivem cerca de cinco mil pessoas. Há refugiados, vindos da zona Oeste, que vivem nos campos há mais de dez anos. As Nações Unidas já emitiram vários alertas, mas até agora nada foi feito.


Um antigo jardim no centro de Díli foi transformado numa espécie de campo de refugiados, mas assemelha-se mais a um bairro de lata. Cinco mil pessoas vivem num espaço mais pequeno que meio campo de futebol.


«Nós temos dois problemas fundamentais. Por um lado as nossas casas foram queimadas e os bens foram apropriados, não temos para onde voltar. Mas também há a questão da segurança, tenho medo de regressar», confessou um dos refugiados à TSF.


Muitos vivem aqui há mais de 10 anos, desde a guerra pela independência. As suas casas foram destruídas ou apropriadas por pessoas do Oeste, por isso preferem ficar em Timor-Leste.


Cerca de 530.000 eleitores estão inscritos para as eleições legislativas em Timor-Leste, com as urnas a abrirem às 23:00 de hoje em Lisboa (07:00 de sábado em Díli), visando preencher os 65 deputados ao parlamento nacional.


Doze partidos e duas coligações apresentam-se a uma votação que será fiscalizada por 489 observadores internacionais, de 45 países e organizações, e cerca de 2.400 locais, que percorrerão parte das 708 estações de voto, instaladas em 520 centros eleitorais nos 13 distritos em que se divide administrativamente o país.


Os primeiros resultados oficiais, embora parciais, deverão ser divulgados segunda-feira, embora tudo dependa da forma como decorrer a respectiva contagem a nível distrital.



Notícias Lusófonas - 29-Jun-2007 - 18:42


Entre o pouco e o nada Timor-Leste vai a votos


Fretilin e CNRT apontados como os previsíveis vencedores… juntamente com a Austrália, Indonésia e China


Timor-Leste vai amanhã a eleições legislativas. Embora seja difícil falar de democracia quando o povo tem a barriga vazia, é verdade que ao todo concorrem 10 partidos e duas coligações que tudo procuraram fazer para trazer até eles os timorenses indecisos e aqueles que embora com uma certa tendência ainda não estavam totalmente cativados. Se são 12 as organizações políticas concorrentes, a generalidade dos comentadores políticos pensam que o poder será dirimido entre duas. A histórica Fretilin de Mari Alkatiri e "Lu Olo" Guterres e o "novo" CNRT do ex-presidente da República Xanana Gusmão.

Por Eugénio Costa Almeida


De um lado a Fretilin, a ainda detentora do poder, liderada por Mari Alkatiri e por Francisco “Lu Olo” Guterres, o candidato derrotado na segunda volta das presidenciais, e o “renascido” CNRT – era o Conselho Nacional da Resistência Timorense que abusivamente, ou não, foi transformado em Congresso Nacional da Reconstrução de Timor-Leste – liderado pelo antigo presidente José “Xanana” Gusmão.


Poderá ser que o poder se dispute entre estes dois colossos da nova Timor-Leste. Mas não se devem esquecer a coligação Aliança Democrática, de Manuel Tilman, reitor da Universidade privada D. Martinho Lopes, nem da UDT de João Carrascalão, para quem ainda não há “eleições livres e democráticas em Timor-Leste”, ou do Partido Democrático, do surpreendente Fernando “Lasama” de Araújo, ou a ASDT, de Francisco Xavier do Amaral, ou, ainda, o PSD, de Lúcia Lobato, para já não se referir a Avelido Coelho, do PST, que, ainda recentemente, denunciou como farsa a existência do português como idioma oficial de Timor-Leste.


Relembremos que na primeira volta das presidenciais os candidatos do PSD, ASDT e PD obtiveram um total de 40% do eleitorado, o que não deixa de ser um facto a ter em conta nestas eleições.


Mas também não devemos deixar de referir Avelido Coelho, do PST, que, ainda recentemente, denunciou como farsa a existência do português como idioma oficial de Timor-Leste. Talvez se relembrasse que o recém-empossado José Ramos-Horta falou em sessões oficiais, e não por uma vez, não em português ou tétum, mas em bahasa, o idioma oficial da Indonésia.


E, depois, há aqueles que votaram Ramos-Horta, que indirectamente apoia a CNRT, e que já terão afirmado que não irão votar Xanana para primeiro-ministro.


Mas se, normalmente, a política e as legislativas são – ou deveriam ser – feitas com base nos partidos e associações cívico-partidárias, em Timor-Leste quatro entidades não partidárias estiveram sempre presentes.


Desde logo o major Alfredo Reinado, que ainda não se apresentou às autoridades e nem foi detido e para quem se fala a possibilidade de uma amnistia o que, provavelmente, não será do muito agrado dos australianos – a segunda entidade – que parece desejarem, caso não o consigam “liquidar”, que ele perdure por muitos anos afastado de Dili e manter, isso sim, o petróleo sob a sua alçada.


Como terceira entidade com interesses nas legislativas, temos os indonésios que, como já referimos, viram deslumbrados o novo presidente falar em actos oficiais em bahasa o que, desde logo, lhes alcandora bons auspícios, se não forem em termos de primazia, pelo menos em termos de cooperação.


E, por fim, a mais discreta das presenças. A China.


Limitaram-se a dizer que estavam presentes através da oferta de arroz aos mais necessitados. Ora, os africanos sabem que a China não oferece nada sem esperar retorno.


Se a Austrália quer, e julga-se poder sê-lo, a potência regional da Oceânia, a China é, claramente, a potência regional e quase a nova superpotência.


E esta não vai permitir que a Austrália esbanje um dos produtos que mais necessita e Timor-leste parece ter para dar e vender: o petróleo.


Um importante factor que os novos dirigentes do país saídos das legislativas vão ter com que conviver.

Senão, a estabilidade que todos desejam para Timor-Leste e para a região será algo efémero e etéreo.



TVI – 29/06/2007 - 17:05


Legislativas em Timor

Entrega de material eleitoral decorre sem problemas


As brigadas da GNR estão a acompanhar a operação e mostram-se satisfeitos com a experiência.


Quase 530 mil eleitores timorenses escolhem, sábado, um novo Parlamento. O segundo e último dia para distribuir o material eleitoral pelas estações de voto decorreu esta sexta-feira. A operação, acompanhada pelos enviados especiais da TVI a Timor-Leste, decorreu sem problemas e foi escoltada pelas brigadas da GNR no território.

Os militares mostram-se contentes no geral pela experiência no território. «É uma experiência muito boa, tanto a nível pessoal como a nível profissional. Permite pôr em prática alguma teoria que temos vindo a ter durante alguns anos. Uma experiência como esta é sempre gratificante para qualquer militar», declarou à TVI o tenente Tiago Silva.

O único inconveniente para os militares é a vontade de regressar a casa. «A experiência está a ser boa mas a saudade de voltar a Portugal é muita», reforçou o soldado Francisco Escalda. E os militares revelam mesmo um aspecto positivo desconhecido para muitos, «as crianças», que dizem ser «espectaculares, extremamente dóceis e alegres».

O cabo Baptista finaliza mesmo a dizer que Timor «acaba por ser um paraíso. Tem que ser um bocadinho melhor organizado. É sempre um encanto muito especial estar aqui e regressar aqui».

As eleições acontecem já este sábado. É a terceira vez que os timorenses são chamados às urnas, desta vez para eleger o segundo Parlamento no país. Contudo, nenhum partido deve chegar à maioria absoluta.

Predominância da Fretilin de Mari Alkatiri disputada nas legislativas de sábado em Timor

Público – 29.06.2007

A competição principal vai ser entre a Fretilin e uma série de partidos interessados em a afastar do papel destacado que até agora tem tido

Jorge Heitor



As eleições legislativas deste sábado em Timor-Leste deverão decorrer sem grandes incidentes, apesar de todas as tensões que se têm verificado ao longo da campanha, da fome que afecta uma parte da população e do grande número de pessoas ainda deslocadas devido aos incidentes do ano passado. Esta perspectiva optimista foi dada a meio da semana pelo representante local das Nações Unidas, o indiano Atul Khare, o qual tem vindo a dizer que os principais problemas deverão surgir depois de mais esta ida às urnas.

Depois das duas voltas das presidenciais que colocaram na chefia do Estado o até há pouco primeiro-ministro independente José Ramos-Horta, perto de 530.000 eleitores são agora chamados às urnas para escolher 65 deputados, de entre um conjunto de 14 listas, cujo peso exacto se torna de antemão extremamente difícil de avaliar.

Desta vez, a Fretilin, do antigo primeiro-ministro Mari Alkatiri, já não vai conseguir o papel predominante com que ficou na Assembleia Constituinte de 88 lugares eleita em 30 de Agosto de 2001.

Sofreu um grande desgaste com o exercício do poder e até uma nítida cisão, com a ala Mudança, de José Luís Guterrres, a alinhar com o novo Congresso Nacional para a Reconstrução de Timor (CNRT), do ex-Presidente Xanana Gusmão.

Terceira lista importante a ir às urnas é a que o Partido Social Democrata (PSD), de Mário Viegas Carrascalão, constituiu com a Associação Social Democrata Timorense (ASDT), de Francisco Xavier do Amaral, que em Maio de 1974 a constituiu em conjugação com Ramos-Horta.

O factor “Lasama”



Quarto trunfo a ter em conta é o Partido Democrático (PD), de Fernando “Lasama” de Araújo, que na primeira volta das presidenciais, em Abril último, obteve 19,18 por cento dos votos expressos, enquanto o presidente da Fretilin, Francisco Guterres, conseguia 27,89 e Ramos-Horta 21,81. Tendo-se colocado depois ao lado deste último, garantiu a sua eleição.

Apesar da existência de 10 outras listas, como a da histórica União Democrática Timorense (UDT), de João Carrascalão, irmão mais novo de Mário, é à volta daquelas quatro que todas as especulações têm vindo a ser feitas, pois acontece até que CNRT, PSD/ASDT e PD parecem ter como principal objectivo impedir a continuação da Fretilin à frente dos destinos do país.

Quando se prepararam as presidenciais, Xanana disse que não queria continuar na política activa e que estava a pensar enveredar por outro género de vida. Logo a seguir, porém, veio a público que tudo iria fazer para que o seu sucessor fosse Ramos-Horta, enquanto ele próprio estaria entre os fundadores de um novo partido, o CNRT.

Deu-se como certo que o primeiro Presidente da República estaria agora a pensar no lugar de primeiro-ministro, mas na última semana o panorama modificou-se uma vez mais, quando o grupo de Xanana deu a entender que poderia preferir para este a presidência do Parlamento, como sucessor de Francisco Guterres, “Lu Olo”. E para a chefia do Governo sugeria mesmo o nome do líder do PSD, Mário Carrascalão, que já foi da Acção Nacional Popular, de Marcelo Caetano, e depois governou Timor-Leste em nome da Indonésia.

Como Carrascalão, porém, propusera para presidente da assembleia legislativa o seu companheiro de lista Francisco Xavier do Amaral, que tal como ele já conta 70 anos, muita coisa estará ainda por definir, nas semanas que se seguirem ao escrutínio.

O guerrilheiro voltou

Revista Visão – 28 Junho 2007

Onde o país é mesmo profundo, a VISÃO acompanhou a campanha de Xanana Gusmão. Uma viagem que foi um bilhete de ida e de volta aos tempos da resistência, com galos coxos e lagartos cantantes, em busca de um sonho representando por um foguetão. Chegará o carisma do comandante para ganhar as eleições?

Henrique Botequilha


Se pudesse, Xanana Gusmão visitaria todos cemitérios que guardam os mártires de Timor-Leste. Em Tumim: o ex-guerrilheiro contempla os túmulos de 74 pessoas massacradas, em 1999, pela milícia local - Sacunar (escorpião) -, que se espraiam pelo morro em socalcos, nos prados de altitude de Oecusse-Ambeno. «Ajudar as famílias destas vítimas é dar um sentido ao seu sacrifício.» O enclave, no lado ocidental da ilha, está cercado pela enorme Indonésia, que se vislumbra na outra encosta do vale. Mas esse já não é o inimigo. Recordar estes mortos é gritar pelos vivos, em nome de uma nova causa, escrita em letra de forma no slogan «libertada a pátria, libertemos o povo.» Esta é a crónica da campanha de um candidato ao poder que um dia jurou aos camaradas de luta, muitos deles entretanto caídos, a rejeição do exercício de cargos políticos.


Um mandato presidencial depois, ele está na corrida para ser o próximo primeiro-ministro de Timor-Leste, numa «luta de galos» com Mari Alkatiri, líder do partido histórico, Fretilin. Jurou também que, expulso o ocupante, o sangue não voltaria a correr neste território de destinos fatais.


Kay Rala Xanana Gusmão, 61 anos, presidente do recém-criado CNRT (Congresso Nacional da Reconstrução Timorense), não conseguiu manter nenhuma das promessas. Viqueque, 3 de Junho, Lorosa'e (Leste): Afonso Kudalai, segurança civil da sua caravana partidária, é abatido a tiro, num homicídio à margem da campanha, embora tenha ganho relevância política já que o suspeito do crime é um polícia apoiante da Fretilin. Maubara, Loromonu (Oeste), dia 19: o candidato distribui pétalas de flores por 20 campas viradas para o mar turquesa e abraça Florindo de Jesus Brites, 25 anos, a quem falta um pedaço do antebraço. As suas costas estão vincadas por uma cicatriz brutal: «Golpe de samurai (sabre).» A imagem do mutilado, em resultado de um massacre da milícia Aitarak (espinho), no pré-referendo de 1999, já fez a capa do diário Jakarta Post, e foi alvo de atenção da Comissão Verdade e Amizade, composta por representantes timorenses e indonésios. Internacionalizou-se a história de um homem que continua desempregado. Ele conhece, uma por uma, as vítimas que repousam sob os seus pés, debaixo da terra vermelha, entre elas um irmão.


Seis anos após a extinção do Conselho Nacional da Resistência Timorense (antiga coligação dos partidos nacionalistas), a sigla CNRT voltou ao país. Perante os mortos, Xanana compromete-se com um novo juramento: «Servir o povo e dar atenção aos que fizeram a luta.»As campas e a o mutilado, afirma, «são a ligação entre o velho CNRT e o novo.»


Mobilização geral


Passaram-se cinco anos sobre a independência e o povo continua miserável, as infra-estruturas não se vêem, as estradas mantêm-se esburacadas, há 20 mil deslocados internos, o investimento privado é pouco mais do que nulo, o país está de novo «ocupado» por militares internacionais, em resultado de uma crise política - entre o Governo Fretilin e o Presidente Xanana -, apimentada por 600 homens que desertaram das forças armadas em protesto contra o Executivo: os peticionários. A violência saiu outra vez à rua e o sangue voltou a correr.


O tempo congelou na meia-ilha tropical. As legislativas, de 30 de Junho podem marcar o momento que separa um estado viável e um estado falhado.


Jogam-se também nas urnas 20 anos de atritos entre o comandante guerrilheiro e o partido que esteve historicamente associado à resistência. Na ressaca da crise, o Presidente que não o queria ser achou que tinha de voltar ao comando do povo, num lugar em que pudesse, efectivamente, mandar: «Dantes, pedi às pessoas sacrifícios, agora vou tomar conta delas», afirmou numa entrevista exclusiva, publicada na última edição da VISÃO (disponível integralmente na página online da revista).


As cadeiras dançaram. O independente Ramos-Horta, que chefiou o Governo, em substituição de Mari Alkatiri, no segundo Governo Constitucional (em cinco anos, já houve três), transitou para o Palácio das Cinzas (Presidência). E o ex-chefe de Estado corre pelo poder executivo - o guerrilheiro despertou.


Maliana, capital do distrito de Bobonaro: numa sala branca, Xanana senta-se numa cadeira de plástico, aquecendo a voz para o comício que não tarda. Está lá Mahuno, o comandante das Falintil (braço armado da resistência), que sucedeu a Xanana, após a sua prisão em 1992, e que foi também capturado nos meses seguintes. Apesar de um AVC, que lhe afecta a fala e a coordenação motora, ocupa um dos lugares cimeiros da lista do CNRT. Estão lá Bissoi e Bilou, duas guerrilheiras que fizeram o pleno de 24 anos na montanha. Veteranos do mato ou actores da duplicidade timorense - trabalhando com o inimigo, atraiçoando-o pelas costas - e activistas na diáspora. Cada rosto, um passado, cada passado uma matriz comum: a resistência de novo, às ordens do seu comandante: o maun bo'ot (irmão maior). «Temos gente da luta armada, da rede clandestina, da frente diplomática (os três ramos da Resistência), só podemos ganhar», afirma um apoiante. «A não ser que matem o katuas (velhote venerável)» Onde a esperança média de vida é de 55 anos, não se estranha o tratamento?


Está lá ainda a Fretilin-Mudança, com a sua legião de ex-governantes, que disputa a liderança do partido contra Mari Alkatiri e que, nestas eleições, se enfiou debaixo do guarda-chuva do CNRT, afrontando «os abusos de poder« do Governo: «Num país pós-conflito teria sido importante incluir a oposição», afirma o coordenador desta facção partidária e ex-ministro dos Negócios Estrangeiros, José Luís Guterres. «Mas [o Executivo] não ouviu ninguém, não conseguiu resolver a crise das forças de defesa e por causa disso teve de chamar tropas estrangeiras, pondo em causa a própria soberania nacional» Este grupo acredita que, depois de a Fretilin ter perdido quase 30% de votos, entre as legislativas de 2001 e a primeira volta das presidenciais, há um mês e meio, será responsável por um autêntico desastre nas próximas legislativas, altura em que fará o cerco final à liderança de Alkatiri.


Quanto a Xanana, o motor auxiliar desta luta interna, exibe um optimismo em crescendo: «Não espero menos do que 51 por cento»


O presságio do galo coxo


O comandante que voltou a sê-lo nunca perdeu certas rotinas adquiridas no mato. Ainda o sol não se levantou e Xanana já está a pé. Poucas horas atrás, teve de esclarecer, naquela quintal de Maubara, uma mulher que pretendia saber se ele só queria os votos do povo. Bebe um café e fuma o primeiro cigarro, que lhe agrava a tosse. Toma um xarope e um rebuçado para a voz, que enfraquece a cada dia, e, à medida que os colegas de partido se levantam, começa o recital de histórias. Mahuno ri como um pirata.


Na longa jornada de campanha, que começou no fim de Maio, na ponta Leste, Xanana vai dormindo em casas de apoiantes, tão pobres como pobre é Timor, humildes mas sempre dignas nas suas paredes de cores sumidas, sofás coçados e mobiliário velho. A electricidade vai falhando, a água acumula-se em recipientes baços, o banho toma-se com uma concha pela cabeça abaixo. Ninguém se queixa - são veteranos, acostumaram-se a muito pior. Acompanhar Xanana em campanha é também mergulhar nas profundezas de Timor-Leste. Antes de cada comício, o candidato é vestido com preparos tradicionais, dando um significado visual ao «liurai dos liurais« (régulos). À chegada a cada localidade, os anciãos cantam o hamulak, um ritual de boas-vindas para os notáveis, e uma criança envolve o seu pescoço com um tais (pano timorense).


Estão sempre presentes os lianain, os velhos que comunicam com os espíritos, e toda a sorte de coreografias: meninas ululantes em Pune, em Oecusse-Ambeno, dançarinos que chocalham trajes em moedas centenárias, em Pasabe, no mesmo distrito, cânticos ancestrais em Ataúro. Tapetes de flores, efeitos em palapa - orgias de cor. Nitibe, ainda em Oecusse, Xanana discursa para uma multidão de camponeses, na alta montanha que perfila os confins do enclave. Um gondoeiro abriga todo o comício e os políticos acomodam-se sobre as raízes desta árvore colossal. A copa é tão frondosa que ensombra toda a assistência. No tronco, há caveiras de animais abatidos em rituais de sacrifício, cujo sangue tingiu de vermelho as pedras na base.


Este é o Timor místico que não se revela apenas nas terras do fim do mundo. Ele também influencia campanhas e testa a racionalidade das elites. Na crise de há um ano, reuniões em baixa voz eram conduzidas por um toké (um lagarto cantante). Se ele cantava, era a confirmação de uma boa ideia. Se ficava mudo, mudava-se a estratégia. «Que país é este, entregue à voz de um toké?«, questionava um actual apoiante do CNRT, que não quer aparecer como alguém metido em crenças no tempo dos seus avós. Em Laleia, terra natal do ex-guerrilheiro, um galo velho e coxo desceu a montanha depois de prolongada ausência: bom presságio. Alguns dos seus inimigos, diz o mesmo apoiante, acreditam que os espíritos dos antepassados confiaram em Xanana a missão de guiar o povo: «Isso mete-lhes medo, muito medo».


O sonho que vai de foguetão


Em palanques improvisados, nos alpendres dos mercados ou sob telas do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados, Xanana projecta a voz e o carisma.


O CNRT pôs a logística a funcionar e camiões a transportar gente em todos os distritos. As crianças descalças ocupam as primeiras linhas, os rapazes efusivos estão na segunda, junto de velhos que queimam as gengivas com a bua (fruto de palmeira mascado com cal). Xanana e Mahuno também a provam.


O material de campanha compõe o espaço e a mensagem - faixas representando o guerrilheiro e o estadista; cartazes futuristas, partilhando o sonho na forma de estruturas aeroportuárias, arranha-céus ou o delírio criativo (que não terá passado no crivo do chefe), de caças de combate e foguetões. O culto do homem está em toda a parte. Mas Xanana está noutra.


Em palco, possui uma energia diabólica. Irrequieto, transmite em tétum a ira contra o Executivo da Fretilin. Imita os ministros, cobrindo-os de ridículo, ressona para ilustrar a ineficiência dos deputados, finge que enche um balão para falar de um poder que «enche, enche, enche e, depois? bum! «Está imparável: «Se o Governo não desenvolve, sai!!!! Não serve o povo, sai! É corrupto, sai!» A assistência, em cada canto do país, concorda em uníssono: «Sai!» A sequência do «sai!», proferida num grito de revolta, incendeia qualquer público. Nunca falha. Excepto em Oecusse, por causa de uma traição linguística. No dialecto local (vaiqueno), sair diz-se «poe». Parece «põe». O orador pensa que o homem que faz a tradução está a sabotar o discurso. Até que, desfeito o mal-entendido, se desfaz em riso e remata, triunfal: «O Governo não faz nada, poe!» Uma coincidência tão tramada como ali perto existir uma terra com o nome de Xanane.


Entre o festival Xanana, a lavagem de roupa suja da Fretilin contra a «Fretilin radical», sobra ainda Anito Matos, humorista e cantor, que faz Timor rir há mais de 20 anos e aquece os corações com as suas baladas românticas ou canções populares. Em campanha, ele põe o povo a dançar, embalado pelos acordes pesados da banda de punkrock Smith Brothers, de Lahane. O artista está orgulhoso: «Esta gente não tem muito com que se divertir» Em Pune, a farra estende-se até ao raiar do sol, com muita música e tuasabo (aguardente) derramado. Mas Xanana prefere trocar impressões com veteranos da rede clandestina.


'Está no papo'


Xanana, «o Deus vivo», católico - não há comício nem ataque ao almoço que não seja precedido por uma oração - é também um mortal.


Há muito poder de fogo à solta em Timor, e o polémico Railós (o homem que denunciou a recepção de armas fornecidas pelo Governo para eliminar adversários políticos) lembra isso mesmo nas iniciativas do partido em Liquiçá.


A polícia, com espingardas automáticas, segue o candidato para cada lugar, os snipers têm a função gravada nas camisolas, a segurança civil envolve-o nas multidões, há muitos camuflados na comitiva, e, a cada hora, alguém recebe um SMS alertando para movimentações suspeitas ou um novo rumor para eliminar o ex-Presidente, na próxima estação.


No outro lado da barricada, o presidente da Fretilin, Lu Olo, afirma em comunicado que há um plano para matar o secretário-geral deste partido, Mari Alkatiri. Nos dias de brasa, durante a crise, lá vinha o Timor místico pedir ao ex-primeiro-ministro que aceitasse a injecção de uma substância de uma raiz que o tornaria imune às balas. Mas o político, cerebral, nunca deixou que lhe tocassem nas veias. Cruzam-se as ameaças de morte, dando corda ao boato. No país, tem força de instituição.


Em Railaco (Ermera), suspeita-se da presença de um homem armado entre os populares que assistem ao comício do CNRT. Xanana não se deixa impressionar. Afinal, enquanto foi guerrilheiro, teve sempre a cabeça a prémio. Terminado o evento, força o regresso ao palco para enfrentar uma ameaça invisível: «Não tenho medo!» - tão mortal como terminar um bife de búfalo e improvisar um palito de uma folha de palmeira, aos olhos do povo.


Eis Xanana, o carismático - fita os eleitores, passa em revista a luta de libertação, os cinco anos de independência, os amanhãs que ainda não cantaram. Plano de desenvolvimento, auditoria aos rendimentos dos políticos, pensões para os veteranos - sempre eles -, justiça para todos «e não apenas para os do partido», saúde também, educação, muita. Olha para as cores do logo do partido: «CNT, cor de ouro, R, cor do crude» O dinheiro do petróleo, afirma, é para investir já: «Guardar até quando?» Promessas, promessas, nunca menos de meia-hora de oratória, às vezes o dobro, e a assistência vidrada. Um ou outro entra em transe. Também há sempre uns fanáticos, ou quem bebeu demais?


No final, descola o «Se'e se'e los» («Quem, quem é?«), uma das canções mais populares da ilha, que coloca a salvação do povo nos «jovens de Timor«. Deve ser verdade, mas a geração da Resistência ainda não se calou e continua a encher campos de futebol: «Isto está no papo», comenta um dirigente da Fretilin Mudança.


Fretilin contra todos


Com uma população maioritariamente analfabeta, os números fazem a diferença. Mal o CNRT foi sorteado na segunda posição nos boletins de voto, nasceu logo o slogan: «Vota ba rua« (vota no segundo). Na caravana, cruzando as estradas lunares de Timor-Leste, o povo saúda o candidato com dois dedos, que também são de vitória. Tão estranho, diz Xanana, passar por uma casa decrépita e ver um retrato seu numa parede. «Como se fosse um santo?» Tanta gente fez dinheiro nos mercados, transaccionado imagens do guerrilheiro, após 1999, quando já se podiam exibir esse tipo de símbolos: «Se alguém ganhou dinheiro com isso, até fico feliz?«


Mas entretanto emergiram outras forças e o país dividiu-se noutras representações? a própria resistência separou-se. E, em 30 de Junho, concorrem às legislativas 14 partidos.


Vão a votos o Undertim (de L7, outro ex-guerrilheiro), o Partido Democrata Cristão, embora a Igreja apoie o Partido de Unidade Nacional (do padre Filomeno Jacó), o Partido Democrata (de La Sama, ex-líder da resistência dos estudantes, que quase venceu Ramos-Horta na primeira volta das presidenciais), a Associação Social Democrata Timorense (de Xavier do Amaral, ex-presidente da Fretilin) em coligação com o Partido Social Democrata (de Mário Carrascalão), a histórica UDT (de João, outro Carrascalão) ? um monárquico (Jacó Xavier) que se julga descendente da coroa timorense e? portuguesa; republicanos e nacionalistas com residência em Lisboa? E a Fretilin sempre só e sempre a acreditar que ganha.


A última cartada do partido no poder foi a promessa da transferência de 25 mil a 100 mil dólares anuais do Governo para cada suco (freguesia), num contrato a assinar com o presidente do partido, Lu Olo.


Há mais de 400 sucos em Timor e o orçamento de Estado é de cerca de 360 milhões de dólares. Também nestas hostes a confiança abunda. Um dia depois de o CNRT ter composto o estádio de Díli, a Fretilin respondeu, quarta-feira, 27, com mais gente ainda - embora tenha recorrido a umas dezenas de camiões para transportar apoiantes da ponta leste da ilha.


Foi perante uma multidão ondulante que Mari Alkatiri pediu a maioria absoluta. Se os resultados da primeira volta das presidenciais servirem de guia para a eleição que se avizinha, o partido de Alkatiri e Lu Olo vence.


Mas é provável que Xanana valha mais votos do que Ramos-Horta, actual Presidente, e que a dinâmica do CNRT, empurrada pela Fretilin Mudança, equilibre o jogo. Mesmo que alcance a maioria simples, o partido no poder arrisca-se a receber um país ingovernável, porque o Parlamento ficaria controlado pelos movimentos rivais. Nesse cenário, Alkatiri admite passar para a oposição, embora deixe no ar a hipótese de uma coligação.


Gusmão, La Sama, Carrascalão (Mário) - os três líderes dos maiores partidos de oposição não têm feito segredo de que partem separados nas eleições e de que estão juntos depois delas.


Em Maubara, o presidente do CNRT irrompeu por um comício do PD que estava a decorrer. Aceitou o tais e tabaco de enrolar e, acabou por se «apoderar» do evento, discursando para os democratas que, por fim, o aclamaram: «Viva Xanana» Há alianças menos subtis? Mas, num momento em que Díli fervilha em negociações políticas, para que lado cairá na verdade La Sama se ele for o fiel da balança?


No ninho do comandante


Entre discursos, Xanana nunca passa despercebido. Tem sempre uma piada fisgada: «Esta mar não tem buracos, aqui não posso dizer mal do Governo?«, afirma para a tripulação indonésia do Nakroma, o ferry que liga, em dez horas de viagem, Díli a Oecusse. Na mesma embarcação, os passageiros estrangeiros espantam-se ao vê-lo a tagarelar, bem-disposto, com o irmão de Alkatiri, um homem que o CNRT acusa de ser beneficiário da «corrupção do Governo«, e que, por coincidência - mais uma -, seguia a bordo no trajecto final (ilha de Ataúro-Díli).


O país é uma aldeia. É preciso transportar uma criança que ardia em febre no Nakroma e, atracado o navio, liga-se para o número de emergência. Mas ninguém atende. Telefona-se para o director do hospital e este não está. Alguém tem o número privado do motorista de uma ambulância e esta aparece, num ápice, nas instalações portuárias da capital, onde um frenético Xanana comanda a operação de transporte do doente.


Logo depois, ele já está a partilhar com observadores estrangeiros, destacados pela União Europeia para acompanhar estas legislativas, o seu optimismo quanto ao resultado eleitoral, e, finda a conversa, à frente dos malay (estrangeiros) e do seu povo, ajuda um homem a puxar pela trela um porco renitente a embarcar para a viagem seguinte. Só os guinchos do suíno abafam a risada geral.


Eis um Xanana que Nito e Zenilda Gusmão, filhos do primeiro casamento, só conheceram já adultos. Privados, no crescimento, da presença do pai, eles seguem agora a maioria dos seus passos na corrida para o Governo.


A actual mulher, Kirsty Sword, e os três meninos (Alexandre, Kay Olo e Daniel) estiveram na Austrália estes dias todos.


Manuel (Anô), o oitavo de dez irmãos, também é presença assídua na campanha, recordando os tempos da meninice em que a «generosidade» do mano José Alexandre (que mudou oficialmente o nome para Kay Rala Xanana Gusmão) distribuía os dividendos do jogo Monopólio pelos vencidos: «Ele foi sempre um conciliador»


Numa pausa na campanha, a família junta-se em Balibar para celebrar os 61 anos do candidato (em 20 de Junho). É convidada uma imensa maioria de companheiros da luta, além do séquito da caravana partidária.


A Fretilin Mudança está lá em peso, Railós também - e Ramos-Horta, membros do corpo diplomático e empresários estrangeiros, mais o inevitável Anito Matos, que vai animar esta reunião de umas 300 pessoas. Xanana é o herói da festa, sempre ligado à corrente, sempre a falar, distribuindo comes e bebes, com a piada seguinte na ponta da língua e a paciência para mais uma fotografia. É ele o show e os comensais simplesmente adoram-no.


O lar dos Gusmão foi erguido em terrenos de Abílio Osório Soares (ex-governador, pró-indonésio, de Timor, falecido em vésperas desta festa de aniversário). Eram rivais mas negociaram a transacção sem dramas. Mesmo a calhar para quem não tinha dinheiro para comprar uma propriedade aos especuladores imobiliários do centro de Díli. Nesta casa dormiu Jorge Sampaio, apenas umas horas, na noite da independência timorense.


Segundo explica Xanana, as poupanças da família, incluindo um prémio em dinheiro da Unesco, foram estoiradas em dádivas a pessoas pobres e nas despesas da Presidência que o Governo se recusou pagar (um diferendo no valor de 28 mil dólares, que se tornou num caso sério da política timorense).


Fora destas guerras, Kirsty Sword abriu uma conta bancária em seu nome e dos meninos e o chefe do clã está proibido de lhe deitar a mão. «Talvez assim se consiga pagar a casa?», brinca.


A residência está situada a meia encosta das montanhas que cercam a cidade e é servida por cinco fontes de água, que alimentam cedros, ciprestes, muita relva, flores por todo o lado, com destaque para uma: a rosa porcelana. Tem ainda um campo de básquete, que serve de sede ao seu Sport Laulara e Benfica.


Vive a uma cota que o mantém longe da realidade precária da capital e seus podres - os tiros nocturnos e os arraiais de pancadaria nos bairros problemáticos, os deslocados que dormem em tendas no centro da cidade - e até acima dos blackhawks australianos que vigiam os céus, como se estivéssemos em 1999 novamente.


Na festa, em surdina, comentam-se os propósitos eleitorais de Xanana. «Para um guerrilheiro sobreviver não basta comida, água e balas, é preciso também amar o povo e ser amado por ele», comenta José Luís Guterres, da Fretilin Mudança. «Esse é o amor que o faz correr de novo e rejuvenescer o homem do mato» É o segundo tempo da Resistência. A conclusão é unânime: «O guerrilheiro voltou»


Na estrada com Xanana - Quatro figuras da caravana partidária


Zenilda Gusmão


A filha mais nova do primeiro casamento de Xanana segue-o em toda a parte. «Na Presidência, ele estava limitado para desenvolver o país e o povo, que continua a sofrer», afirma Zenilda, 32 anos, gestora, compreendendo as motivações desta candidatura: «Estou orgulhosa do meu pai» Ela viu-o em pessoa, pela primeira vez, aos 18 anos, na prisão de Cipinang. «Foi estranho, só o conhecia de fotografia» Hoje parecem inseparáveis.


Bilou Ou Domingas Alves da Silva, 42


Para uma ex-guerrilheira, com o pleno de 24 anos de mato, não faz sentido falar no regresso do comandante: «Ele tinha a chefia militar e politica. Agora, é só política, e foi politicamente que resolveu a crise há um ano» Está com Xanana porque «a democracia corre perigo», diz. «Mas as pessoas da resistência estão a zelar por ela.»


Anito Matos


Tem 45 anos, parece ter menos 20. Ex-Renitil (resistência dos estudantes), foi preso em Bali após o massacre de Santa Cruz. É o artista mais popular de Timor. Já fez campanha nos comícios do Golkar (partido único na ditadura indonésia), mas era pela Fretilin que o seu coração batia. E foi por ela que animou os comícios do partido, em 2001. Agora, diz-se «enganado e arrependido» e passou-se para Xanana: «Para voltar a contribuir para o meu país.»


Railós, 41


Revelou ter recebido armas do Governo para eliminar adversários políticos e Xanana estaria na alegada lista da morte. Denunciou o alegado golpe e o presidente do CNRT chamou esta figura polémica para a campanha em curso. «Nunca iria disparar contra o meu povo» A Fretilin acusa o partido rival de usar Railós para intimidar a população e pergunta pelo paradeiro das armas. Quanto a este homem polémico, diz-se pronto para responder à justiça e declarar inocência em relação ao seu envolvimento em quatro homicídios: «Não tenho medo.»

Mari Alkatiri: «Xanana mostra ódio quando fala de mim»

Revista Visão –28 Junho 2007

O secretário-geral da Fretilin responde às graves acusações que Xanana Gusmão lhe tem dirigido no último ano e que atingiram um novo patamar de tensão com a entrevista exclusiva que o ex-Presidente da República e actual líder do CNRT (Congresso Nacional de Reconstrução de Timor-Leste) concedeu à VISÃO, na passada semana

Henrique Botequilha


Mari Alkatiri afirma que havia um plano para a sua captura, na crise de há um ano, e insinua que as ordens viriam da Presidência. Agora que se encontra nas urnas com Xanana Gusmão, um velho amigo a quem emprestava um descapotável para namorar e que se transformou em alguém que fala com «cinismo» e «ódio». Está confiante de que vai ganhar as próximas legislativas, de 20 de Junho, em Timor-Leste, embora admita uma vitória com maioria relativa. Nesse cenário, diz-se aberto a coligações (embora não especifique com quem), ou até a passar para a oposição se não obtiver maioria parlamentar. Entrevista numa manhã de sol, no patamar da residência do ex-primeiro-ministro, que está protegida por vários seguranças, ou não tivesse a Fretilin declarado que a sua vida corre perigo.

Dos Leitores

Vergonhoso comportamento da LUSA

No seguimento da Nota de ontem, lamento informar a todos que, dos despachos então referidos (1 - Timor-Leste/Eleições: Forças Armadas: entre a guerrilha e o 'offshore'; 2 - Timor-Leste/Eleições: Vítor, pai de Reinado: 'Ele no mato não está bem' e 3 - Timor-Leste/Eleições: Fretilin denuncia "grave perversão" de jornal local), apenas o último foi reproduzido num único portal de língua portuguesa.

Estranhamente, apesar de constarem da lista de despachos da Lusa, mantiveram-se na clandestinidade... ou foram retirados... É difícil explicar ou compreender que nada conste sobre estes despachos misteriosos ao longo de todo o dia 28 nos portais das rádios, TV’s e jornais portugueses!

Como é possível ser mais acessível e rápido aceder a notícias sobre Timor-Leste de qualquer outra agência de notícias em inglês, nomeadamente Reuters, France Press, Associated Press e Australian Associated Press que mantêm um serviço aberto e gratuito?
O número de notícias acessíveis sobre Timor-Leste em portais do Nepal ou Brunei – claro, em inglês – é superior ao da Lusa!!!!!!

O número de notícias acessíveis sobre Timor-Leste divulgadas em regime de acesso livre, pela EFE (espanhola), EM PORTUGUÊS, é superior ao da Lusa!!!!!!

Será possível ser a própria Lusa a ‘boicotar’ a difusão de notícias sobre Timor-Leste em português?

Como é possível a Lusa prestar este serviço público escandaloso de boicotar em informação em língua portuguesa?!

Nem sequer está incluído na secção ‘Ásia’, onde é mais importante a divulgação de um despacho anunciando o fecho diário da bolsa de Tóquio!
...

Despachos da Lusa NÃO ACESSÍVEIS, publicados hoje:

- Timor-Leste/Eleições: Perfis das 14 candidaturas às legislativas - 09:45
- Timor-Leste/Eleições: Independência ainda com fronteiras por definir - 11:23
- Timor-Leste/Eleições: Demissão de Alkatiri “foi um gesto de patriotismo” - constitucionalista (C/ ÁUDIO) - 11:34
- Timor-Leste/Eleições: Campanha centrada em ataques da Fretilin a Xanana - 11:41
- Timor-Leste/Eleições: CNE recebeu 29 queixas durante a campanha - 12:25

Entrevista a Mari Alkatiri - Visão

Visão
28.06.2007

O SECRETÁRIO-GERAL DA FRETILIN RESPONDE ÀS GRAVES ACUSAÇÕES QUE XANANA GUSMÃO LHE TEM DIRIGIDO NO ÚLTIMO ANO E QUE ATINGIRAM UM NOVO PATAMAR DE TENSÃO COM A ENTREVISTA EXCLUSIVA QUE O EX-PRESIDENTE DA REPÚBLICA E ACTUAL LÍDER DO CNRT CONCEDEU À VISÃO NA SEMANA PASSADA

Mari Alkatiri afirma que havia um plano para a sua captura, na crise de há um ano, e insinua que as ordens viriam da Presidência. Agora que se encontra nas urnas com Xanana Gusmão, um velho amigo a quem emprestava um descapotável para namorar e que se transformou em alguém que fala com «cinismo» e «ódio». Está confiante de que vai ganhar as próximas legislativas, de 20 de Junho, em Timor-Leste, embora admita uma vitória com maioria relativa. Nesse cenário, diz-se aberto a coligações (embora não especifique com quem), ou até a passar para a oposição se não obtiver maioria parlamentar. Entrevista numa manhã de sol, no patamar da residência do ex-primeiro-ministro, que está protegida por vários seguranças, ou não tivesse a Fretilin declarado que a sua vida corre perigo.

ELEIÇÕES

“MESMO COM MAIORIA RELATIVA ACEITAMOS IR PARA A OPOSIÇÃO”

Que resultado espera nestas eleições? Partimos para esta campanha já com a certeza de que iríamos obter a maioria simples. E decidimos montar a nossa estratégia para ganhar a maioria absoluta. Penso que já chegámos lá.

Porquê? Pelos resultados que estamos a ver. Enquanto os outros basearam a sua campanha na mentira, incluindo Xanana, nós fizemos a nossa na base de informar sobre a verdade dos últimos cinco anos - os sucessos e os insucessos, que também os houve - e sobre os nossos planos para os próximos cinco. O que saiu errado, nós reconhecemos...

Será possível que o senhor tenha desenhado um plano a longo prazo para Timor sem cuidar das necessidades urgentes? Partiu-se do princípio de que tínhamos de construir o Estado e implementar um plano com prioridades bem definidas: educação, saúde, infra-estruturas e agricultura. Mas a satisfação das necessidades imediatas do povo (mais comida, mais agasalho e tudo isso) estaria a ser cuidada pelas organizações não governamentais, internacionais e nacionais, que tinham todas as isenções (impostos). Mas não estava. Se o povo tivesse sido informado dos passos que fomos dando, teria compreendido melhor todo o processo nas zonas rurais do que uma certa elite nas zonas urbanas.

Foi um grande erro? Havia uma grande expectativa do povo e uma grande necessidade de o manter sempre informado das dificuldades na implementação do processo. Essa comunicação falhou.

Há uma dinâmica do velho guerrilheiro que, de facto, Xanana confirma ter retornado no CNRT. Como interpreta isso? Eu caracterizo Xanana assim: unir todos para ele comandar, ou dividir para ele reinar.

Quer queira ou não, ele está aí e mantém muito do seu carisma. A quem vai o CNRT roubar votos? A todos os lados. Mas as pessoas que foram para PD [Partido Democrático] e PSD [Partido Social Democrata] fizeram-no por influência de Xanana. E as que ficaram na Fretilin foram aquelas que ele não conseguiu influenciar. O mais provável é que vá roubar [votos] àqueles partidos.

A Fretilin Mudança [facção partidária que disputa a liderança com Alkatiri e apoia Xanana nesta eleição] vai tirar muitos votos ao seu partido? Não, se foram 500 ou mil já é muito.

O que vai acontecer a esses militantes? Vão ser expulsos. O que eles fizeram é suficiente para serem expulsos liminarmente. Nem precisam de ser ouvidos.

Não admite fazer mais nenhum congresso? Por causa deles... Não.

Será que Xanana Gusmão não vale mais votos do que Ramos-Horta (20% na primeira volta das presidenciais)? Não. Será inferior. Porque a imagem de Ramos-Horta foi de equilíbrio. E Xanana aparece com ódio à Fretilin.

Se não é, pode corrigir. Não temos febre de continuar a governar. Se tivermos maioria absoluta, é porque o povo continua a confiar em nós, se for maioria relativa e verificarmos que há vantagens em coligar-nos...

Com quem? Não vamos dizer. Se houver vantagens, coligamo-nos. Senão, vamos para a oposição.

Mesmo com maioria relativa? Sim. Se os outros todos se juntarem para fazer maioria absoluta no parlamento, e pensam que conseguem governar com uma coligação de três, quatro, cinco, seis partidos, então experimentem.

Os militantes compreendem isso? Sim. Na nossa campanha, fomos dizendo isso. Querem que Fretilin governe, dêem-nos maioria absoluta. Atenção: Ramos-Horta [nas presidenciais] teve o apoio dos outros partidos, mas também teve 80 mil a 100 mil votos que são da Fretilin. E que agora não vão para Xanana.

NOVO MANDATO

“SE HOUVER COLIGAÇÕES O PRIMEIRO-MINISTRO TERÁ DE SER MAIS FORTE”

Se a Fretilin ganhar quem será o primeiro-ministro? Tenho dito sempre que a Fretilin vai continuar a governar. Os partidos que não estão a governar é que têm de ter a preocupação de dizer quem vai ser primeiro-ministro e quem vai ser ministro.

É uma nova legislatura que começa. Está bem, mas isso não significa que haja mudanças radicais no governo. Tem de haver algumas e alguns ministros têm de cair fora. Mas não estamos preocupados com isso. Preferimos dizer que a Fretilin está a governar e vai continuar.

Mas vai ser preciso um primeiro-ministro. Existe um primeiro-ministro.

Seria Estanislau da Silva? A decisão será feita em função da vitória que tivermos. Se for maioria absoluta, se for maioria relativa...

Está a dizer que só será primeiro-ministro com maioria absoluta? Se calhar é o contrário, eu é que não quero ser nem numa situação nem noutra. Mas, calhar, se houver coligações, é que é preciso um primeiro-ministro mais forte.

A sua imagem saiu muito afectada disto tudo? Viu a manifestação ontem?

Sim. Mas era um comício da Fretilin e, apesar de tudo, a Fretilin não é o país. Mas é o partido maioritário do país.

Quem financia a Fretilin?Temos no país mais de 150 mil militantes. Se por cada mês cada um contribuir com 25 cêntimos é o suficiente para fazer face às nossas despesas.

Qual é o orçamento da campanha? [Em Timor] Aqui, as coisas são feitas de forma diferente. Há campanhas locais, quando vamos para os distritos, e há quem contribua, por exemplo, com comida. E isso não entra nas nossas contas. E há contribuição central para os transportes e tudo o resto: entre 100 mil e 200 mil dólares. Tudo pago pelos militantes, não é como o CNRT que não tem militantes. O Xanana diz mesmo à VISÃO que não pode ser transparente porque senão ninguém lhe dá dinheiro. É uma declaração gravíssima. Vai contra a lei dos partidos políticos.

DESENVOLVIMENTO

“É PRECISO FAZER MAIS PELA LÍNGUA PORTUGUESA”

O dinheiro do petróleo está a ser gasto já? Está a ser gasto já. Essa é a questão. A lei não diz que são só os juros [que são aplicados]. Isso não chegaria para pagar o orçamento, que trouxe do fundo do petróleo 270 milhões de dólares. Xanana assina uma lei, promulga-a sem saber o que ela diz. É um disparate aquilo que ele fala [as verbas do petróleo estão a ser poupadas em vez de investidas em infra-estruturas]. Por outro lado, quem sabe minimamente de economia e desenvolvimento, sabe que não se pode injectar dinheiro se a economia não conseguir absorve-lo: não se pode deitar um litro de água numa chávena, senão transborda. E quando transborda, vai para os bolsos dosoutros. O fundo do petróleo tem de ser cultivado, não pode ser enterrado.

Vai manter a aposta na língua portuguesa? A língua é um factor fundamental para marcar a diferença e um país pequeno como Timor precisa de ser diferente nesta área. Não pode ser a extensão do bahasa indonésio, nem a extensão da língua inglesa. Sem rejeitar a importância dessas línguas no país. Mas, para marcar a diferença, é preciso desenvolver o português, o tétum e as outras línguas nacionais.

Está satisfeito com os progressos na língua portuguesa?
Não estou, é preciso fazer muito mais.

Portugal pode fazer mais?
Portugal tem as suas limitações mas nós agora também temos alguma capacidade no sentido de fazer dessa uma boa cooperação. Fala-se mais português no interior do que em Díli. Tem de se fazer mais um esforço nas zonas urbanas.

E na administração pública? A administração pública foi muito afectada por esta crise. O sentido profissional ficou reduzido e quem ganhar as eleições vai ter de começar a trabalhar melhor nesta questão, no sentido de incutir o brio profissional nos funcionários públicos. Todos eles têm o direito de escolher o partido que quiserem, como cidadãos, mas, como funcionários públicos, têm de executar o programa do Governo eleito. Não podem boicotar.

Isso aconteceu? Aconteceu.

O que é decisivo nos próximos cinco anos? Uma boa governação. E isso só se faz com alguma experiência de governação. Nem o CNRT nem outro partido aqui têm essa experiência. Será decisivo o investimento no desenvolvimento rural e melhoria da qualidade de vida das comunidades, mas também o investimento da saúde, na educação, nas infra-estruturas. Fundamentalmente na economia de base e abrir caminho para que as pessoas se aproximem e se enquadrem na economia de mercado.

É a mesma conversa de há cinco anos - parece que estes nunca existiram? E algum país resolve em cinco anos os problemas todos?

Há deslocados internos de novo? Há cinco anos não tínhamos, foi a crise...

Há tropas estrangeiras de novo em Timor? Naturalmente, mas se tivesse vindo cá há um ano, não existiam tropas estrangeiras nenhumas. Porquê. Porque houve uma crise provocada.

Infra-estruturas que não se vêem?
Recebemos este país com 70% das infra-estruturas destruídas. Agora, estão 1 200 escolas a funcionar, algumas construídas de raiz outras reabilitadas. Se me perguntar se estão nas melhores condições, não estão, é preciso melhorá-las. Temos hospitais nos 13 distritos, centros de saúde em muitas partes do país, mais de 400 médicos, mais de 2 mil enfermeiros, parteiras, etc. Nunca este país teve isto.

AMEAÇAS

“A LINGUAGEM CORPORAL DE XANANA DIZ MUITA COISA”

Xanana diz que continua seu amigo. É verdade? Ele também diz que sabe fingir muito bem. O que mostra um grande cinismo na sua relação com as outras pessoas. Mas não o considero meu inimigo. Mal de mim considerar inimigo uma pessoa que continuo a respeitar pelo seu passado recente, na libertação deste povo. Talvez o considere um adversário que se excede nos seus discursos. Ainda ontem [27 de Junho] disse isso no comício [em Díli]:«Estou aqui a criticar Xanana, mas no passado dele ninguém toca.»

Só que amigo é uma palavra muito grande? Nós éramos muito amigos. Ele sabe. No período colonial, como eu era topógrafo, ganhava um bocadinho melhor, Xanana era das poucas pessoas a quem emprestava o meu carro descapotável (um Daihatsun) para ele ir namorar. Éramos tão amigos que teve a confiança de me nomear, ainda em Cipinang, como responsável pelas negociações do petróleo com a Austrália. E continuei a negociar o Mar de Timor até deixar o Governo. Ele nunca pôs em causa a minha postura transparente e de defesa dos direitos do povo neste caso. Os resultados estão aí.

O que correu mal entre os dois? Foi a questão do poder. Xanana foi eleito Presidente, nos termos definidos pela Constituição, só que ele é o comandante... E nenhum comandante gosta de perder o comando. Ao candidatar-se a Presidente, deveria ter visto primeiro quais eram as suas competências. Se ele queria o poder do primeiro-ministro, deveria ter criado um partido em 2000 ou 2001 e concorrer às eleições. Teria todas as hipóteses de derrotar e vencer.

Agora é tarde? É.

Há um plano para matar Alkatiri, como disse o seu partido em comunicado? Foi uma interpretação que se fez de uma declaração do engenheiro Mário Carrascalão (líder do PSD), que disse que me queria eliminar política e democraticamente. O que ele diz também é que Xanana quer eliminar-me a todo o custo. O que se subentende disto é que ele não olha a meios.

Mas tem alguma outra fonte de informação para sustentar essa ameaça? Há todo um ódio que Xanana mostra na sua campanha à minha pessoa. Não é só que ele diz, mas também a linguagem corporal - isso diz muita coisa, às vezes diz mais do que as palavras. Xanana mostra ódio quando fala de mim. Não como um adversário, mas como um inimigo a abater.

A CRISE

“TENTARAM CAPTURAR-ME”

O que saiu errado nestes cinco anos? A gestão das duas principais instituições de defesa e de segurança. Reconhecemos isso. Mas é preciso ver que, mesmo em relação a essas duas instituições, não estava bem claro quem comandava o quê. Xanana, na sua entrevista à VISÃO, acabou por reconhecer aquilo que eu suspeitava: a partir do momento que perdeu influência sobre as Forças [de Defesa de Timor-Leste], passou a comandar a polícia, através de [superintendente] Paulo Martins. A polícia, comandada por nós, conseguiu conter as manifestações da Igreja, em 2005, sem um único incidente. Mas a polícia, comandada por Xanana, em 2006, não conteve as manifestações intencionalmente para provocar a crise e a queda do Governo.

Nessa leitura, não deve surpreendê-lo a presença de Paulo Martins na lista do CNRT. Claro, nas minhas análises de conspiração, já incluía isso como um dado.

Já agora, quais são os outros dados? Xanana vem agora confirmar que era ele quem comandava a polícia. E, no dia 28 de Abril [de 2006], quem estava a comandar a polícia tinha de certeza nos seus planos a minha captura.

A sua captura? Naquele dia, a polícia quis levar-me do hotel Timor para o comando [da polícia] e depois para um distrito que não sei qual seria.

Pode concretizar quem era? Se era Xanana quem tinha o comando, de certeza que as ordens eram dele. [a captura] só não se concretizou, porque eu disse aos meus guarda-costas, àqueles mais leais e que continuam comigo até agora, que o destino final seria a minha casa. Depois, Paulo Martins veio aqui, com o seu adjunto, e zangaram-se os dois com os meus guarda-costas.

Se havia a intenção de o capturar, por que não o fizeram noutro momento? Eu tinha aqui um guarda pessoal, que estava aqui mais para me controlar do que para me proteger, o senhor Afonso, que viveu aqui muitos dias comigo. Só que eu tinha pedido a um grupo das FDTL [militares] e o brigadeiro Taur Matan Ruak mandou a sua própria guarda de vinte pessoas. No dia seguinte, o senhor Afonso fugiu. Para onde? Precisamente para Balibar, para junto do Xanana. Por coincidência, 28 de Abril foi o dia em que eu e Ramos-Horta fomos falar a Balibar [onde fica a residência privada de Xanana] com o Presidente e encontrei aquele senhor lá.

Concorda com Xanana quando ele diz que isto foi tudo «uma brincadeira para ver quem tinha mais poder»? Se foi brincadeira, foi da parte dele.

Como interpreta o aparecimento do CNRT, liderado por Xanana Gusmão? A entrevista de Xanana Gusmão à VISÃO é muito auto-denunciadora. Descuidou-se ou fez de propósito.

Ele mente em algum momento dessa entrevista? Completamente. Ele fala de conversas entre nós dois que nunca aconteceram. Sempre reconheci em Xanana Gusmão um indivíduo que reage pela emoções, mas nunca pensei que fizesse todo o seu discurso na base da mentira. Ele mente descaradamente.

Mente na parte que revela o que se passou no Conselho de Estado em que o convidou a apresentar a demissão? Eu até soube que a ABC [cadeia televisiva australiana] não estava para colocar no ar aquele programa [sobre a alegada distribuição de armas do Governo a civis e que foi usado como argumento para a destituição do chefe do Governo]. Foi solicitado daqui que o programa fosse colocado para se ter um elemento para me poderem acusar.

Pela Presidência? Alguém próximo da Presidência, não foi Xanana directamente.

Quem foi? Alguém próximo... A verdade é que havia elementos errados. Xanana diz que mandei um SMS para Railós [o homem que denunciou ter recebido as armas de Rogério Lobato, ex-ministro do Interior posteriormente condenado a sete anos e meio de prisão no âmbito deste caso] a dizer: «Para onde vais?» Não dizia mais nada. Por que ele mandou-me um SMS a dizer que estava a caminho de não sei onde... Xanana diz [na entrevista] que não me recordava das datas [do encontro com Railós] e que depois eu lembrei-me que foi em 8 de Maio. Claro que me lembrava: foi a única vez que estive com Railós em toda a minha vida. Está certo que, como ele telefonou para Xanana, também telefonou para mim. Nem sempre atendia porque já sabia que se estava a tentar gravar as conversas. Mas se alguém gravava, não tinha problema nenhum, porque não tive nada a ver com Reilós.

Mas ele esteve em sua casa.Ele veio aqui com Rogério Lobato, como todos sabem. Railós esteve aqui dez ou quinze minutos, não mais. Ele e mais dois. Xanana sabe disso. Xanana queria inicialmente acusar a Fretilin de ter importado dois contentores de armas. Foi aí que eu disse: «O senhor Presidente viu algum contentor?» Veio a comissão internacional de inquérito e fez uma investigação profunda sobre a história das armas. A ministra do Plano e das Finanças esteve quatro horas com eles. As alfândegas ainda mais. Foi provado por A mais B de que um dos contentores era para a polícia e o outro para as FDTL, mas não eram armas. Eram munições e outros equipamentos. A partir daí essa acusação já não serviu e agarrou-se ao grupo de Railós para ver se me apanhava. O objectivo não era apanhar Rogério Lobato. Era eu.

O senhor encobriu informações à Presidência sobre este caso? Xanana é um obsessivo. Se ele pensa que a verdade é uma e ele não a encontra, então é porque alguém está a mentir.

Em Timor, obviamente um dos senhores, Mari Alkatiri ou Xanana Gusmão, mente. Algum dia saber-se-á a verdade... Por isso mesmo, desafiei Xanana para um debate público. O povo precisa da verdade. Não pode ser só um a apresentar a sua versão e o outro a dizer que é mentira e nunca se confrontarem os dois cara a cara na televisão e na rádio, colocando os factos na mesa. Isso teria sido óptimo nesta campanha. Já tentámos, em termos restritos, resolver os problemas e não deu. Já nos abraçámos, já chorámos, mas saímos os dois do gabinete a dizer que o outro é que é culpado.

Corrupção, nepotismo, integração do aparelho de Estado pelo partido? ...Ele [Xanana] vomita tudo isso, mas não diz por que acha que isso acontece. Em qualquer parte do mundo, o partido com maioria absoluta governa. Quer fazer democracia, mas continua com aquela mentalidade de guerrilha: todos juntos a ser comandados por ele.

AMNISTIA

“HOJE JÁ NINGUÉM FALA DOS CRIMES DO APARTHEID”

Foi um erro chamar Rogério Lobato para o Governo? Bom, erro ou não, isso depende... A verdade é que, em Janeiro ou Fevereiro de 2006, o Dr. Ramos-Horta veio ter comigo a dizer que tinha estado com Xanana e que ele estava a pensar sugerir-me passar o Rogério para a Defesa, porque ele tinha feito um bom trabalho no Ministério do Interior. Eu é que disse: «Vocês não sejam loucos, isso não vai acontecer.» Nos encontros semanais comigo, criticava Roque Rodrigues porque era um ministro [da Defesa] ineficiente. Mas elogiava Rogério Lobato: «É um ministro que se preocupa com a instituição.» Ele disse-me isso. Bom... dizia eu: »Não exagere.» Em 27 de Março de 2006 (essa data nunca me hei-de esquecer porque é o aniversário da Polícia Nacional de Timor- Leste e por coincidência a minha neta nasceu nesse dia), Xanana, no seu discurso, disse que polícia está bem institucionalizada, tem um ministro, querendo fazer passar a mensagem contrária em relação às FDTL. Depois disso é que vem dizer que Rogério estava mal...

Mas agora Rogério Lobato está preso e há uma lei de amnistia que já levantou a crítica de ser feita à medida do caso dele. Quer comentar? É bom dá-la a ler aos técnicos para verem se é à medida ou não. Até porque o actual Presidente, quando era primeiro-ministro, foi ao Parlamento defendê-la.

O senhor concorda com essa amnistia? Concordo, mas toda a amnistia deve ser feita pós-sentença. Não em abstracto.

Não se arrisca a transmitir uma ideia de impunidade? A impunidade transmite-se quando as lideranças não encontram uma forma de caracterizar os actos dentro do seu contexto. Tudo o que aconteceu neste país, de Abril do ano passado até há uns tempos atrás, foi feito num contexto de crise política. Não pode ser apenas a justiça a resolver uma crise política. É assim em todo o lado do mundo. Vimos na África do Sul, onde o apartheid era um crime contra a humanidade, imprescritível. Mas hoje já ninguém fala dos crimes do apartheid, porque há um contexto político que deve ser levado em consideração. Mas a verdade todos devem conhecer, porque faz parte da História.

PARTIDO COMUNISTA

"A FRETILIN HOJE FAZ PARTE DA GRANDE FAMÍLIA DA INTERNACIONAL SOCIALISTA"

Concorda que o velho duelo entre Xanana e Fretilin, desde que ele saiu do partido, vai ser jogado agora? Na entrevista [à VISÃO], ele aborda mal a questão porque diz que fui contra [a saída]. Ele deveria ter sido mais honesto e dizer que, na altura, eu apoiei-o e que quem esteve contra foi Abílio Araújo.

Por que Xanana nunca voltou à Fretilin? Em 1998, quando fizemos a conferência nacional em Sydney, ainda falei com ele por telefone, pensando que a estratégia dele seria idêntica à de Mandela: uma vez fora da cadeia, voltaria ao partido. Mas ele disse claramente que não o faria, porque preferia continuar como figura de equilíbrio. Respeitei essa opinião. No meu regresso [a Timor] em 1999, ele disse que ia receber o Banco Mundial e o FMI [Fundo Monetário Internacional] e precisava de mim a seu lado. Foi o primeiro encontro que tive com Lu Olo, Taur Matan Ruak e outros comandantes e começámos a falar da necessidade da reestruturação da Fretilin. Mas Xanana opôs-se e disse que o partido não devia ter a pretensão de ser um partido de massas, apenas de quadros. Ou seja, nós passávamos a ser uma organização de quadros para deixar que os outros partidos existissem...

A Fretilin é um partido comunista? O único período que a Fretilin se afirmou marxista-leninista foi na liderança de Xanana. Ele é que o transformou em partido marxista-leninista em 1981. Quando é confrontado com este facto, diz sempre que o fez na continuidade de um processo que estava em curso e tinha sido liderado pelos outros - que já tinham morrido. Até os mortos são culpados pelos actos dele.

Qual é a ideologia da Fretilin? A Fretilin hoje faz parte da grande família da Internacional Socialista. É membro de pleno direito. Se as pessoas disserem que o Partido Socialista português ou o Partido Trabalhista britânico são comunistas, então não têm cultura política.

Não é a polémica votação de braço no ar, no último congresso da Fretilin, uma prática associada a uma organização comunista? Quando nós estávamos a votar de braço no ar aqui em Díli, também o PSD o fez em Portugal [sic]. E o Partido Trabalhista australiano também permitiu que uma pessoa votasse em nome de não sei quantas. Só não é democrático, quando é connosco.

Henrique Botequilha/Visão

Traduções

Todas as traduções de inglês para português (e também de francês para português) são feitas pela Margarida, que conhecemos recentemente, mas que desde sempre nos ajuda.

Obrigado pela solidariedade, Margarida!

Mensagem inicial - 16 de Maio de 2006

"Apesar de frágil, Timor-Leste é uma jovem democracia em que acreditamos. É o país que escolhemos para viver e trabalhar. Desde dia 28 de Abril muito se tem dito sobre a situação em Timor-Leste. Boatos, rumores, alertas, declarações de países estrangeiros, inocentes ou não, têm servido para transmitir um clima de conflito e insegurança que não corresponde ao que vivemos. Vamos tentar transmitir o que se passa aqui. Não o que ouvimos dizer... "
 

Malai Azul. Lives in East Timor/Dili, speaks Portuguese and English.
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